terça-feira, 12 de março de 2013

Músicas sobre caipiras



O nome deste blog vem da palavra tupi ka'apir, ou cortador de mato, que deu origem ao termo caipira, nome dado aos habitantes do interior do estado de São Paulo. Com o tempo, o termo se espalhou e passou a denominar todo aquele que vem do interior. Como gosto muito das músicas que narram a vida do homem do campo, resolvi, então, listar aqui minhas músicas preferidas sobre o universo caipira.

8- Jeito Caipira- Gino e Geno

Gino e Geno são conhecidos pela irreverência. Nessa música, deixam claros os itens essenciais numa esposa para conquistar um caipira. Só de citar frago com quiabo na letra já merecia estar aqui na lista.

Mulher pra me ganhar, ela tem que gostar do meu jeito caipira
Não mexer na muringa onde eu guardo minha pinga com sucupira
Quando eu chegar do mato, catar carrapato em meu corpo cansado
Não fazer enjoeiro quando sentir cheiro de bosta de gado


7- Caipira - Chitãozinho e Xororó

Orgulho caipira retratado na voz da maior dupla caipira do Brasil.

Sou, sou desse jeito e não mudo
Na roça nós tem de tudo
E a vida não é mentira
Sou, sou livre feito um regato
Eu sou um bicho do mato
Me orgulho de ser caipira



6- Raízes - Renato Teixeira e Pena Branca e Xavantinho

A descrição do ambiente rural feita pelo compositor é linda demais.

Já tem rolinha
Lá no terreiro varrido
E o orvalho brilha
Como pétalas ao sol
Tem uma sombra
Que caminha pras montanhas
Se espelhando feito alma
Por dentro do matagal



5- Saco de estopa- Chico Rey e Paraná.

Um caipira lembra seu passado com a lida de gado por meio dos objetos guardados em um saco de estopa. Música simples, mas carregada de emoção e saudosismo.

Pra mim representa um belo passado
A lida de gado que eu sempre gostei
Assim enfrentado um trabalho duro eu fiz o futuro sem violar a lei,
O saco é relíquia com os seus apetrechos,
Não vendo e nem deixo ninguém por a mão
Nos trancos da vida agüentei intacto e o ouro do saco é a recordação.


4- Franguinho na Panela - Craveiro e Cravinho

A música conta um dia de trabalho duro de um caipira, que apesar das adversidades, não deixa faltar o franguinho na panela pra família.

O recanto onde moro é uma linda passarela
O carijó canta cedo, bem pertinho da janela
Eu levanto quando bate o sininho da capela
E lá vou eu pro roçado, tenho Deus de sentinela
Têm dia que o meu almoço, é um pão com mortadela

Mas lá no meu ranchinho a mulher e os filhinhos
Tem franguinho na panela


3- O Doutor e o Caipira- Goiano e Paranaense

Sem dúvida uma das músicas que retraram melhor a simplicidade e a sabedoria caipira, em uma conversa com um doutor no hospital. 

Todas as vezes que me chamam de caipira
É um carinho que recebo de alguém
É uma prova que a pessoa me admira
E nem calcula o prazer que agente tem


2- Vida Boa - Victor e Léo

Esta é a música mais recente da lista, provando que o sertanjeo não precisa ser de raíz para ser bom.

Moro num lugar
Numa casinha inocente do sertão
De fogo baixo aceso no fogão, fogão à lenha ai ai
Tenho tudo aqui
Umas vaquinha leiteira, um burro bão
Uma baixada ribeira, um violão e umas galinha ai ai


1- Romaria - Renato Teixeira

O maior clássico da música caipira na voz do meu cantor preferido só podia estar em primeiro.

O meu pai foi peão, minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, joguei, investi, desisti
Se há sorte eu não sei, nunca vi
Me disseram porém que eu viesse aqui
Pra pedir de romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Livros sobre o Mar






Meu filho e o mar, em Ubatuba-SP


"Lançamos o barco. Sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar"
Mia Couto


     Minha relação com o mar nunca foi das melhores. Ainda hoje, toda vez que vou para praia pela Tamoios fico pensando se não seria melhor ficar em Paraibuna, no meio das montanhas. Nascido no Vale, protegido no horizonte pelas serras do Mar e da Mantiqueira, talvez tenha sido a imensidão do oceano que me impediu de apreciá-lo, ou o fato de nunca me sentir confortável com o balanço das ondas. Essa distância da minha cultura caipira do mundo caiçara foi, no entanto, sempre permeada por um fascínio discreto pelas histórias marítimas.
      O primeiro livro sobre o mar que li, pelo que me lembro, foi Vinte Mil Leguas Submarinas, do Julio Verne. Lembro de tê-lo lido muito pequeno, quando ainda nem havia despertado em mim o gosto pela leitura. Sinal de que o livro é interessante mesmo pra quem não tem o hábito de ler. Depois, veio o clássico O Velho e o Mar, de  Ernest Hemingway, que acredito ser o livro mais conhecido sobre o mar. Ainda na faculdade, li Os Velhos Marinheiros, do Jorge Amado, que tem tudo o que se espera de um bom livro sobre histórias de marinheiros.
        Estes dias, quando fui assitir As Aventuras de Pi, me lembrei de já ter lido um livro que tinha uma história muito parecida com o filme. Pesquisando na internet, descobri que o autor literalmente copiou a idéia do livro Max e os Felinos, do Moacys Scliar.  Achei até um vídeo em que o autor comenta o ocorrido:


         Outro livro que fala de um menino sobrevivendo no mar é O Garoto no Convés, do irlandes John Boyne, mesmo autor do best-seller O Menino do Pijama Listrado. No livro, o autor reconta sua versão, na pele de um garoto tripulante, do famoso motim do navio de guerra inglês HMS Bounty, em 1789. O que acho interessante é o autor ter conteúdo para escrever páginas e mais páginas sobre uma pequena tripulação à deriva no mar.
           Meu interesse recente pelas águas do mar foi despertado pela leitura do Cem Dias entre Céu e Mar, do Amyr Klink.  Não imaginava que o livro era tão legal. No começo ficava pensando o que ele contaria dos dias remando sozinho no meio do oceano, mas a narrativa é tão envolvente que saía do trabalho querendo pegar logo o livro e me ver como ele, em meio a histórias de tubarões batendo no casco do barco, baleias curiosas, ondas gigantes e tempestades. Tudo isso é certamente muito mais interessante do que ficar sentado de terno de frente pro computador...
            Inspirado pela leitura do Cem Dias entre Céu e Mar, comprei Paratii, também do Amyr Klink, sobre sua expedição à Antártica, e dois livros que me foram recomendados: A expedição Kon- Tiki, de Thor Hayerdhal, e o A Incrivel Viagem do Shackleton, de Alfred Lansing. Agora é embarcar nessas leituras e deixar a cabeça viajar pro mar.

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

E Deus fez o fazendeiro


 
  
"O sertanejo é, antes de tudo, um forte" 
Euclides da Cunha

      Como muitos sabem, as propagandas mais caras do mundo são veiculadas no intervalo da final do futebol americano. No último Superbowl, a Dodge Ram publicou o comercial "So God made a farmer", baseado no discurso de Paul Harvey, radialista norte-americano, sobre o que levou Deus a criar os fazendeiros. Claro que a Dodge tem entre os fazendeiros um grande público alvo, mas me chamou a atenção o fato de que uma empresa invista tanto dinheiro para também prestar uma homenagem a um trabalhador que, no Brasil, nem sempre é reconhecido como merece. Como me disse meu colega Diego, é sinal de uma sociedade evoluída valorizar os trabalhadores do campo. 
     Infelizmente, em algumas partes do Brasil, ainda prevalece imagem distorcida do trabalhador rural, ora o Jeca Tatu de pouca instrução dos textos de Monteiro Lobato, ora o demônio capitalista latifundiário do agronegócio. Entre um e outro extremo existe uma infinidade de famílias que retiram seu sustento da terra e que ajudam nosso país a ser um gigante da agricultura e pecuária.
     Certa vez, quando fui visitar um alambique em Caçapava, da pinga Campeã do Vale, ouvi do produtor a queixa de que o produto da roça nunca é valorizado como o da cidade. Quantas pessoas pechincham na feira pra economizar R$0,20 no alface plantado e colhido a duras penas pelo pequeno produtor rural mas não se preocupam em pagar caro numa bolsa de marca porque é chique? Por isso creio que iniciativas como a da Dodge são importantes para dar o devido valor àqueles homens do campo e à sua produção.
      Ai está a linda homenagem prestada pela Dodge Ram aos fazendeiros, com uma tradução livre que fiz do texto "So God made a farmer":




"E Deus fez o fazendeiro" Paul Harvey

       "E no oitavo dia, Deus olhou para baixo sobre seu paraíso planejado e disse: "Eu preciso de um caseiro." Então Deus fez um fazendeiro.

    
Deus disse: "Eu preciso de alguém disposto a levantar-se antes do amanhecer, ordenhar vacas, trabalhar o dia todo no campo, ordenhar vacas de novo, jantar e depois ir para a cidade e ficar até depois da meia-noite em uma reunião da diretoria da escola." Então Deus fez um fazendeiro.

    
"Eu preciso de alguém com braços fortes o suficiente para retirar um bezerro nascendo, mas ainda suaves o suficiente para fazer o parto do seu próprio neto. Alguém para chamar os porcos, domesticar máquinas rabugentas, chegar em casa com fome e ter de esperar o almoço até que sua esposa alimente as visitas, e dizer a elas para voltar em breve - e realmente querer isso."  Então Deus fez um fazendeiro.

    
Deus disse: "Eu preciso de alguém disposto a sentar-se a noite toda com um potro recém-nascido. E vê-lo morrer. Em seguida, secar os olhos e dizer: 'Talvez no próximo ano." Eu preciso de alguém que possa dar forma a um machado com uma muda de caqui, ferrar um cavalo com um pedaço de pneu de carro, que possa fazer arreios no descontrole, encher sacos e restos de sapato. E alguém que,  na época de plantio e colheita, termine suas 40 horas semanais de trabalho ao meio-dia da terça-feira e então, sofrendo com dores nas costas pelo trator, inicie outras setenta e duas horas de trabalho." Então Deus fez um fazendeiro.

    
Deus tinha que ter alguém disposto a andar nos sulcos a toda velocidade para buscar o feno antes das nuvens de chuva e ainda assim parar no meio do campo e correr para ajudar quando visse os primeiros sinais de fumaça saindo da casa de um vizinho. Então Deus fez um fazendeiro.

    
Deus disse: "Eu preciso de alguém forte o suficiente para cortar árvores e abrir caminhos, mas suave o suficiente para domar cordeiros, desmamar porcos e cuidar dos franguinhos rosados, e que pare seu cortador de grama por uma hora para colocar uma tala na perna quebrada de uma cotovia do campo. Tinha que ser alguém que iria arar profundamente e reto, sem cortar cantos. Alguém para semear, capinar, alimentar, criar animais, revolver a terra, e arar, e plantar, e tosquiar, e coar o leite, e reabastecer a cocheira, e terminar a dura semana de trabalho com uma viagem de cinco milhas à igreja.

    
"Alguém que una a família em conjunto com laços fortes e macios de partilha, que ria e, em seguida, suspire, e depois responda, com olhos sorridentes, quando seu filho disser que quer passar a vida "fazendo o que o pai faz."  Então Deus fez um fazendeiro.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Livros sobre corrida


 

Quem gosta de correr sabe que a atividade tem um único problema: dura pouco. A não ser que você seja um ultramaratonista, dificilmente você conseguirá correr mais que 1h ou 2h por dia. Uma boa solução que encontrei no auge da empolgação foi me dedicar à leitura de livros sobre o tema. Fiz uma pequena lista daqueles de que mais gostei.

 6- Por qué Corremos? Las causas cientificas del furor de las maratonas.
Martín de Ambrosio e Alfredo Ves Losada
Editora Debate
 POR QUE CORREMOS? (D.AMBROSIO-V. LOSADA)
Comprei este livro de autores argentinos no Uruguai. Não sei se já há versão em português. Apesar do título pretencioso, o texto não responde de maneira definitiva a pergunta do título, mas fala sobre diferentes teorias de forma leve e descontraída. O que mais gostei no livro foram as histórias de corredores famosos e anônimos, às quais os autores recorrem para falar sobre a paixão das corridas. Foi por meio dessas histórias que descobri que a Argentina tem duas medalhas de ouro olímpicas na Maratona!




5- Zen and the Art of Running. The Path to making peace with your pace
Larry Saphiro
Adams Media
Escrito por um corredor, o livro é mais um da série Zen e a arte de alguma coisa. Confesso que esperava mais do livro, que passa boa parte falando sobre problemas enfrentados pelos corredores. O chato é que não acredito que os temas desenvolvidos por ele, como "como acordar pra correr" ou "como não ter preguiça" seja realmente um problema para quem gosta de correr. Acho que a leitura vale para quem quer aprender um pouco mais sobre a cultura Zen. Essa parte, sim, vale a pena. Se você tiver preguiça de ler o livro, aqui vai um ótimo texto sobre o assunto:




4- Do que eu falo quando falo de corrida
Haruki Murakami
Alfaguara Brasil
 
Murakami deve ser, hoje em dia, o maior escritor-maratonista e só por isso o livro já vale a leitura. O livro aborda sua preparação para algumas corridas e demonstra como o fato de correr trouxe influência para sua vida e para seu trabalho como escritor. Para mim, o ponto positivo do livro é sua linguagem literária e o modo como expõe sua vida de escritor e corredor.





3- 50 Maratonas em 50 dias. Segredos que aprendi correndo.
Dean Karnazes
Leblon
Este é o livro mais "esportivo" desta lista, porque fala menos de teorias e mais de prática. É recheado de dicas sobre tênis, alimentação, exercícios e tem até planilhas de corrida - tudo com muita propaganda embutida. O autor é conhecido como o homem de melhor físico no planeta e as provas que ele comenta são mesmo impressionantes. Ele correu uma maratona por dia durantes 50 dias seguidos e, ao longo da descrição de cada uma, vai distribuindo dicas e contando casos muito interessantes.





2- Nascido para correr. 
Christopher Mcdougall
Globo
O livro conta a história de uma tribo indígena mexicana para quem a corrida é parte essencial da sua inserção no mundo. Os ultramaratonistas Tarahumaras haviam ganho uma das mais difíceis ultramaratonas dos EUA e o fascínio de suas histórias de grande resistência fez com que o autor do livro reunisse alguns dos melhores corredores de grande distância dos EUA para competir em território mexicano com os indígenas. Gostei muito das histórias de vida dos ultramaratonistas e da investigação que o autor faz para desvendar o nosso gosto pelas corridas. 




1- Correr
Jean Echenoz
Alfaguara Brasil
 
Acredito que esse seja o melhor livro de corrida desta lista, não só porque uma biografia do Emil Zátopek já valeria a pena, mas porque é muito bem escrito. O livro foge daquele tipo chato de biografia e narra a história do Zátopek com uma escrita muito elegante. A mistura da história de vida do corredor tchecoslovaco com o texto do autor francês produziu um dos melhores e mais emocionantes livros que já li, independentemente do gênero.




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Eu acredito em Saci

"Em briga de saci, qualquer chute é voadora"
Ditado caipira

     Já faz uns três anos que comecei a acreditar em Saci e deixar minha imaginação atribuir a esse mito caipira algumas peças de que somos vítimas no cotidiano.
     Desse modo ficou mais fácil saber quem trocou o sorvete por feijão no pote que estava no congelador, quem jogou água no chão do banheiro pra eu pisar de meia, quem desmarcou a página do livro que estava lendo ou quem empurrou minha mão na hora que eu estava abrindo o iogurte e fez o papel rasgar no meio. Isso sem falar nos inúmeros pés de meia perdidos, que ele levou pro meio do mato junto com aquele guarda-chuva que eu tinha certeza que estava no carro.
     Passei a me divertir mais com essa história. Quando vejo um cavalo correndo em disparada sozinho, tenho certeza que em cima dele estava o saci, cavalgando feliz com sua traquinagem.
    Comecei a me interessar por sacis quando ele se tornou um símbolo da resistência caipira contra a invasão mitológica gringa. Em São Luiz do Paraitinga criaram a Sosaci, sociedade dedicada a observar sacis. Que lindo poder falar para os outros que você viu um saci sem o menor constrangimento! Uma das vitórias do movimento foi a aprovação de lei estadual em São Paulo oficializando o dia 31 de outubro como o dia do saci. Com o halloween crescendo absurdamente, é interessante ver a data como uma oportunidade para relembrar nossos monstros da mitologia caipira. 
Para quem gosta do assunto, recomendo vivamente o principal livro sobre sacis: "Saci-Perere: o Resultado de um Inquérito", do Monteiro Lobato. Publicado em 1918, o livro é resultado das cartas de leitores do Estadão com depoimentos sobre o Saci. Logo depois, em 1921, Monteiro Lobato lançou o infantil "O Saci", que também é ótimo, um verdadeiro dicionário das lendas rurais do Brasil. 
A última grande aparição na mídia do Saci foi a campanha para que fosse escolhido mascote da Copa de 2014. Infelizmente não rolou, mas é legal ver que seu mito tem sido redescoberto e revalorizado. Quem sabe um dia não veremos tantos sacis no Brasil como Leprechauns na Irlanda?

Para finalizar, aqui vai a tatuagem de uma grande amigo, caipira também do Vale do Paraíba e um dos caras que mais entende de educação que já conheci, Daniel Leite:


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estabilidade literária. O que você leu em 2012?

O que você está lendo de bom aí?
imagem: readtoday.com

"Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas."
Mario Quintana

    Quando se fala em funcionário público, uma das primeiras coisas que vêm à cabeça é a famosa estabilidade. O que para muitos é sinônimo apenas de estabilidade financeira, às vezes ganha novos contornos. Para mim, há uma estabilidade fundamental, que por muito tempo ansiei: a estabilidade literária, ou "poder ler o que quiser e quando quiser".
    Comecei a gostar de ler meio tarde, no meio do 3° colegial, mas depois veio faculdade e concurso e acabei lendo muita coisa por obrigação. Hoje valorizo muito a sensação de chegar na livraria e escolher o livro por pura curiosidade, sem ter que resumir ou fazer fichamento porque serei cobrado. Claro que esse período não durará muito, pois em pouco tempo novos cursos virão e terei de me debruçar em leituras obrigatórias. Por isso, quis aproveitar essa boa fase em 2012 para ler autores novos e temas que nada têm a ver com o trabalho.
    Acredito que essa sensação é compartilhada por muitos colegas do Itamaraty, por isso pedi pra quem encontrei online no Fb que me indicassem seus destaques de 2012. Com cada um morando em um canto do mundo e com interesses diversos, o resultado pode ajudar quem quer ler coisa nova.  Não foram poucas as vezes que conversei com colegas que aumentaram muito sua carga de leitura no exterior, até pela escassez de opção de lazer em alguns lugares. Parafraseando novamente Mario Quintana: "O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado". Quem mora em lugares sem muitas livrarias sabe a felicidade que é ver o pacote da Amazon na porta de casa!
Agradeço desde já a colaboração de cada um pro blog! Vamos lá para lista, com nome e lugar em que mora hoje em dia. Tem gente que indicou mais de um livro e, como o importante é passar informação, aí estão todos:

Rodrigo Papa (Brasília)
  • "Travessuras da Menina Má",  Mario Vargas Llosa
  • "Rio das Flores", Miguel Sousa Tavares
Marcela (Japão)
  • "1Q84", Haruki Murakami
Sarah (Brasília)
  • "Maus", Art Spiegelman
 Paulo Thiago (Brasília)
  • "Teoria Geral do Esquecimento",  José Eduardo Agualusa
Igor (Brasília)
  • "Desde que o Samba é Samba", Paulo Lins
  • "A Confissão da Leoa",  Mia Couto
Fabiano (Argentina)
  • "A Short History of Byzantium", John Julius Norwich
Diego Kullmann (Paraguai)
  • "Relampagos", de Ferreira Gullar
  • "Tractatus Logico-Philosophicus", Wittgenstein, (edição de 1968, com tradução e apresentação (excelente!) de José Arthur Giannotti.) *nota do Diego
  • "Bim Bom- A contradição sem conflitos de João Gilberto", Walter Garcia
 Edson (Angola)
  • "Naturaleza, Historia, Dios", Xavier Zubiri.
Luiz Gustavo Bacharel (Brasília)
  • "Apologia de Sócrates" e "O Banquete",  Platão
  • "Quintal de Memórias", Tufy Habib
 Fabiana (Brasília)
  • "A Queda dos Gigantes" , Ken Follet
  • "O Inverno do Mundo", Ken Follet
Helder (Brasília)
  • "The Inner Game of Tennis", W Thimothy Gallway
Daniel (Haiti)
  • "Travesty in Haiti", Timothy Schwarz
  • "Os Crimes de Napoleão", Claude Ribbe
  • "A Ilha sob o Mar", Isabel Allende
Vicente (Brasília)
  • "Proud to be a Mammal",  Czeslaw Milosz
Joaquim (Peru)
  • "The Passage",  Justin Cronin
 Miguel (Holanda)
  •  "Le Monde d'Hier",  Stefan Zweig
  • "El Sentimiento Trágico de la Vida", Miguel de Unamuno
Daniella (Azerbaijão)
  • "The Shock Doctrine - The Rise of Disaster Capitalism", Naomi Klein
Ramiro (Irã)
  • "Jerusalem: a Biography", Simon Sebag Montefiore
Paulo Augusto (Brasília)
  • "On China", Henry Kissinger.
Caio (Kwaite)
  • "Pornopopeia", Reinaldo Moraes
  • "O Império é Você", Javier Moro
Rafael Paulino (Tailândia)
  • "Chabadabadá",  Xico Sá
Irineu (Uruguai)
  • "Viajes y otros viajes", Antonio Tabucchi.  
Maria Luiza (Brasília)
  • "HABIBI", Craig Thompson
  • "Persépolis", Marjane Satrapi
Paulo Henrique (Namíbia)
  • "The Kaiser's Holocaust", David Olusoga
  • "My Father's Country: Story of a German Family", Wibke Bruhns
Alex (Síria)
  • "A Visit from the Goon Squad", Jennifer Egan
  • " The Hunger Games", Suzanne Collins
 Nil (Brasília) 
  •  "O Triunfo do Fracasso", Rüdiger Bilden
  • " O Amigo Esquecido de Gilberto Freyre Freyre", Maria Lúcia Garcia Pallares-burke 
Filipe Abbott ( Brasília)
  • "Arte da Política",  Fernando Henrique Cardoso 
André (Eslovênia)
  • "After Dark",  Haruki Murakami
Juliana (Quênia)
  • "Orlando", Virginia Woolf
Ezequiel (Brasília)
  • "10 dias que Abalaram o Mundo", John Reed. 
Marcelo Gameiro (Brasília)
  • "London Triptych", Jonanthan Kemp
  • "Nemesis", Phiip Roth
  •  "Rock Creek Park", Simon Conway
  • "Snowdrops", Andre Miller
  • "The Sense of an Ending", Julian Barnes
  • "Murder at the Windsor Club", Stephen Stanley
 Paulo Cezar, vulgo eu mesmo (Paraguai)
  • "Eu receberia as piores notícias dos seu lindos lábios", Marçal Aquino
 E você? O que indicaria de leitura para 2013?


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Precisa estudar muito para ser diplomata?


"Eu acredito demais na sorte e tenho constatado que, quanto mais duro eu trabalho, mais sorte eu tenho." Thomas Jefferson

Hoje vou quebrar uma das regras deste blog que era não falar do trabalho, mas depois de responder pela 10ª vez a pergunta do título do post eu precisava desabafar. 
Mesmo passado algum tempo da aprovação no concurso do Rio Branco, de vez em quando aparece algum amigo de amigo que quer dicas sobre como passar na prova. No meio de perguntas gerais surgem umas mais engraçadas. Para uma amiga perguntaram se precisava tocar piano e para mim já perguntaram umas três vezes se tem mesmo que morar na África. Eu juro que respondo a todos com a maior boa vontade, até que vem a famosa pergunta, presente em 9 de cada 10 emails de candidatos: "É preciso estudar muito?"
A vontade inicial é responder que não precisa, pois, assim como a Telesena, são aprovados os que fazem mais e menos pontos na prova.  Mas, como eu sou vice-campeão do Prêmio Nobel da paciência- perdendo apenas para o Dalai Lama (injustamente, porque ele nunca foi casado)- acabo respondendo que sim, precisa.
O que me dá um pouco de incômodo é pensar que por trás de "É preciso estudar muito?" ou "Precisa ler tudo mesmo?" existe um claro desejo de obter uma aprovação sem esforço, com jeitinho.
Lembro quando tive minha primeira reprovação no concurso e fui chorar as mágoas com minha professora de inglês. A conversa que tive foi muito importante para rever meu conceito sobre aprovação e reprovação. Ela me fez entender que não deveria pensar que fui reprovado, mas, sim, que não havia ainda adquirido o conhecimento necessário para exercer a carreira diplomática. Parece uma "tucanização" da reprovação, mas há uma filosofia interessante por trás disso. A prova nada mais é do que um reflexo do seu conhecimento sobre os temas que o Ministério acha necessário que um servidor tenha minimamente. Se você ainda não os tem e não quer estudar muito para adquiri-los, porque querer entrar na carreira? Perguntar se precisa gostar de estudar pra ser diplomata é mais ou menos perguntar se precisa gostar de correr para ser maratonista. Não que todos diplomatas sejam apaixonados por estudar e façam isso nas horas vagas, mas são pessoas que tiveram a clara consciência de que em uma fase de suas vidas foi preciso concentrar-se em estudar para adquirir o nível de conhecimento exigido pelo trabalho que escolheram. 
Nós geralmente temos uma visão muito negativa de provas, pois as encaramos como carrascos prontos para nos derrotar de forma injusta. Dificilmente as vemos como uma forma de medir o conhecimento que adquirimos durante os meses de estudo. Acredito que elas nada mais são do que isso, simples termômetros. Essa desmistificação da prova é fundamental, pois nos permite focar no que realmente importa, que é a nossa preparação e nosso estudo. Quanto mais você estudar, mais confiante fica e menos chance haverá de cair algo que você não sabe. Aquela máxima "não existe questão difícil, você que estudou pouco" é cruel, mas não deixa de ter um fundo de verdade. 
Uma teoria que apliquei e funcionou muito bem pra me ajudar a ter o equilíbrio emocional necessário é pensar em cada matéria como um balde a ser preenchido com areia. O concurso então tinha 9 matérias, que seriam 9 baldes que eu deveria preencher com pelos menos 60% de areia (conhecimento) cada, para então ingressar "naturalmente" na carreira. Alguns baldes, como o de Inglês, exigiam mais dedicação e tempo para serem preenchidos; outros, como História e Geografia, eu já vinha da faculdade com algum conhecimento e por isso precisei de menos esforço pra chegar aos 60 - 70%. Pensar dessa maneira me permitia focar na preparação para exercer a carreira e evitava que eu concentrasse meus pensamentos negativamente na dificuldade da prova. 
Para finalizar o post-desabafo, acredito que no Brasil ainda temos uma imagem muito negativa dos estudos. Temos medo de ter de estudar para alcançar algum objetivo. Desde a escola lembro que aqueles que estudam, prestam atenção nas aulas e vão bem nas provas são alvos de brincadeira dos amigos. Quem nunca zuou um cdf aqui? Na Coréia do Sul, ao contrário, os campeões das olimpíadas de matemática são ídolos nacionais. O reflexo disso na sociedade é claro e não preciso me alongar.
No começo, quando me perguntavam da dificuldade do concurso, eu tentava não parecer pedante ao dizer que é muito difícil. Hoje me sinto mais confortável e digo que sim, que exige muita dedicação e preparação, com a consciência de que isso não me faz ser melhor nem pior do que ninguém. Sou apenas alguém que dedicou alguns anos da vida a apenas estudar e por isso alcançou o que queria, como ocorre com um atleta que compete melhor porque treinou o um cantor que canta melhor porque praticou, e assim por diante. 
No pain no gain!

Para saber mais sobre o concurso e a carreira ai vão alguns links interessantes:








segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Música caipira made in Paraguay

O Violeiro, de Almeida Junior
"Moda bem tocada é aquela que desperta em nós uma saudade que a gente nem sabe do quê" 
Abaeté Renato Andrade

A frase do violeiro Abaeté Andrade, citada no livro "Música Caipira", do jornalista José Hamilton Ribeiro, explica muito do meu fascínio pelas músicas paraguaias cantadas em guarani.  Apesar de não entender quase nada da letra, elas sempre me despertaram uma saudade, pois me pareceram, desde o princípio, muito similares às músicas caipiras de raiz que desde pequeno ouvia com meu avô.
Apesar de não ser um especialista em música e só saber tocar campainha, me arrisco a dizer que o sucesso do nosso sertanejo pode ter origens em músicas "made in Paraguay".
Segundo o livro de José Hamilton Ribeiro (meu repórter preferido do Globo Rural!), a nossa música caipira tem origens nas tradições dos cancioneiros ibéricos. Foi por meio dos jesuítas que penetrou em nosso território, como forma de catequizar os indígenas. Assim se passou também no Paraguai. Com temática e instrumentos em comum, nos dois territórios o elemento ibérico fundiu-se com a cultura indígena produzindo músicas que acredito serem muito similares.
Além dessa similaridade mais antiga, muitas músicas que acreditamos serem grandes sucessos caipiras do Brasil tiveram sua origem no Paraguai. São traduções de guarânias e polcas, ritmos típicos daqui, que influenciaram vários artistas brasileiros na segunda fase do desenvolvimento da música caipira, pós-Segunda Guerra. O marco da entrada das guarânias na canção popular brasileira foi o disco de Cascatinha e Inhana, na década de 1950, com os sucessos paraguaios "India" e "Meu primeiro amor". Foi o disco caipira de maior vendagem até então, tornando-se grande influência para a geração seguinte. Eis aqui a dupla cantando música caipira "made in Paraguay":




O verbete da wikipedia sobre guarânias traz um tópico sobre as músicas brasileiras cantadas nesse ritmo. Até o clássico "Fio de Cabelo" encontra-se lá:
Para finalizar a seção de guarânias em português, aqui vai minha seleção preferida, cantada por Bruno e Marrone, e a guarânia "Saudade", de autoria do ex-Embaixador brasileiro em Assunção, Mário Palmério:





A música paraguaia mais famosa no Brasil não é uma guarânia, mas sim uma polca paraguaia (na verdade, a guarânia é uma derivação da polca, que é mais acelerada). Estou falando de "Galopeira", primeiro sucesso de Chitãozinho e Xororó, a dupla que levou o sertanejo ao grande público no Brasil. Apesar do sucesso das grandes duplas sertanejas anteriores a eles, creio que Ch & X foram, nos anos 1990, responsáveis pelo surgimento de um público urbano para a música caipira. Abriram caminho para Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano e todos os outros que vieram e estabeleceram o sertanejo como um dos principais gêneros musicais do país.
Eis o original de Ch & X de Galopeira (nome de uma dançarina típica daqui), de autoria do paraguaio Mauricio Cardoso Ocampo:



Vamos a relação do Wikipedia de polcas paraguaias abrasileiradas:

No último show de Zezé di Camargo e Luciano em Assunção houve uma parte dedicada apenas a essas músicas, com participação de um grupo local. Zezé enfatizou a importância que as guarânias e polcas tiveram na sua infância musical. Já ouvi de várias pessoas que a música paraguaia era bem presente no Brasil em décadas anteriores. Uma pena que tenhamos ficado tão bitolados nas músicas em inglês e esquecemos de apreciar a beleza musical dos vizinhos.
Hoje o Paraguai é um grande consumidor de nossas músicas sertanejas, cujo sucesso devemos, em muito, aos próprios paraguaios e sua contribuição cultural.

Para quem quiser saber mais, eis um estudo interessante sobre a influência musical paraguaia no Mato Grosso do Sul:

Por fim, Zezé di Camargo e Luciano cantando em guarani e minha música preferida no Paraguai, "Recuerdos de Ypacarai", que fez muito sucesso no Brasil:





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ao meu querido tio Waltão



             
                  Quando criei este blog o fiz com a intenção de falar apenas de episódios alegres e felizes. Pensei muito se deveria escrever aqui sobre a despedida inesperada do meu querido tio Waltão. Cheguei a conclusão que deveria sim escrever, pois apesar de o falecimento ser dolorido, se tem uma palavra que definiu meu tio desde as minhas primeiras lembranças da infância foi a alegria.
                  Estes dias, ao colocar essa foto acima na internet, ia escrever a legenda "o tio mais querido da família",  mas pensei que seria um pouco deselegante com os outros. Não se passaram nem alguns minutos quando meu outro tio também colocou uma foto do Waltão com a legenda "o membro mais querido da família". E assim viveu meu tio, sendo o mais querido e amado por todos.
                Segundo nos contava, ele tinha sido "feito no navio", enquanto meus avós vinham da Itália para viver no Brasil. Era divertido ouvir essa história. Hoje ela faz todo sentido. Uma pessoa tão especial assim não pode ter sido concebida em terra firme, como todo mundo. Foi certamente no mar, no meio da viagem de mudança de vida de seus pais que, sem saber, trariam ao mundo um filho que mudou a vida de todos que o conheceram, de um jeito especial e único.
                Duvido que alguém já tenha ouvido a frase: "E o Waltão, como está?", sem que a pessoa que perguntou tenha um largo sorriso no rosto. Sempre que perguntavam dele era com alegria. E assim será para sempre. Sempre que nos lembrarmos dele, será pela mais pura felicidade que o ser humano pode transmitir.
                   Lembro de quando era pequeno e íamos visitá-lo em Taubaté e que descobri que poderia perguntar qualquer coisa do passado que o Waltão saberia. Se não soubesse, a resposta que ele dava com um largo sorriso no rosto era suficiente para me alegrar. Da última vez que fui visitá-lo em Taubaté, meus olhos se encherem de lágrimas ao ver o Alexandre descobrindo no tio-avô a mesma alegria, admiração e carinho. Lembro exatamente do diálogo:
                  - "Wartão", quanto é infinito vezes infinito?
                  - Hummm não sei, não aprendi matemática.
             E o ambiente se encheu de risada, como acostumava acontecer. Guardarei esse momento mágico para sempre. A descoberta pelo Lele de que o Waltão era especial, não pelas dificuldades que tinha, mas pela pessoa que era e sempre será.
                 Foi-se o maior contador de histórias que já conheci. E como eu gostava delas. Seu nome, Santos Emilio Walter Rotella, dizia que saiu de uma discussão etílica entres os parentes para ver quem escolheria o nome de batismo. Acabou ficando com três. Imagino como deve ter sido acirrada a disputa para nomear alguém tão único neste mundo. Um nome só realmente não bastaria.
                  Esse final de semana, quando chegou ao céu, certamente pediu a Deus para voltar à década de 1960, para ver o futebol amador de Itajubá, os bailes de carnaval do Itajubense, ver o Santos de Pelé, a Brigitte Bardot e tantas outras coisas que amava do passado. Encontrou seu irmão mais velho e seus pais. Está feliz, como sempre esteve. Poderá pedir de volta ao Garrincha aquele cigarro que diz ter emprestado ao ídolo no bar do Vadinho. Verá Puskas novamente com a bola e tantos outros jogadores do passado cujos nomes conheci pela sua memória incrível.
                   É duro entender por quê ocorrem essas idas inesperadas. Parece ironia saber que Waltão peito-de-aço, como era chamado quando jovem, morreu do coração. Mas o que conforta é saber que o coração sempre foi a parte mais linda do meu tio. Tenho pra mim que ele vivia com o coração. Quem mais hoje em dia dá bom dia com um sorriso quando encontra um estranho? Ou faz uma verdadeira festa para cada reencontro? Só tendo muito coração para rir tanto da vida apesar das adversidades cognitivas que a vida o impôs.
                     Minha história preferida que ele contava era das vezes que "voltou a ser criança". Foram duas: uma, quando era mascote do Azurra; outra, quando inesperadamente voltou a ser criança quando sua mãe ligou a TV no Jornal Nacional...
                     Querido Tio Waltão, nesse sábado você foi criança pela terceira vez. Nasceu de novo e agora vive no coração de cada um que te encontrou nesta vida. Sempre te amaremos.

Foto tirada pelo meu tio Julio


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A bruxa da amoreira


Estávamos meu filho e eu comendo amoras no pé em frente de casa quando ouvimos um grito:
- A amoreira é frágil, não é pra subir.
Desci da árvore e vi uma senhora caminhando com os cachorros. Lembrando-me daquela citação "Nunca discuta com um idiota. Ele te arrasta até ao nível dele, e depois vence pela experiência”, resolvi apenas retrucar:
-Bom dia pra senhora também.
Mas ela era insistente, como costumam ser os chatos.
- Você como adulto deveria saber que não pode subir na amoreira, tem que ensinar essa criança!
Fiquei quieto e esperei a bruxa continuar sua caminhada, imbuída do espírito de estragar o prazer alheio de quem encontrasse pela frente.
Como não pude retrucar, deixo aqui algumas perguntas que gostaria de ter feito:
  • Como ela quer que eu ensine a importância de cuidar das árvores sem ele ter conhecido o sabor de comer uma fruta no pé?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de arriscar sem que ele descubra que as melhores amoras estão mais alto, onde ninguém quis ir?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de tomar atitude e não esperar o mais fácil sem que ele perceba que embaixo da árvore já não há nada para comer?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de fazer tudo com atenção se ele não escorregar num galho seco e cair?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de cuidar da saúde se ele não aprender como dói levar uns arranhões caindo de um galho?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de cuidar do que ele gosta sem que uma amora manche sua camisa favorita?
  • Como ela quer que eu ensine a importância de ter alguém em quem confiar sem que ele saiba que pode subir um pouco mais porque eu estou embaixo pra segurar?
  • Como ela quer que eu ensine a importância da imaginação sem que aquele galho distante só possa ser alcançado por um Indiana Jones como ele?
  • Como ela quer que eu ensine a importância do dinheiro sem que aquela folha de amoreira vire uma nota de 100 num passe de mágica e possa comprar 5 amoras pretinhas?
  • Como ele vai descobrir a importância de partilhar sem jogar umas amoras pretas que ele descobriu lá no alto para quem ficou embaixo?
  • Como ele vai descobrir o amor de infãncia sem a pergunta "você gosta de amora"?
  • Como ela quer que eu ensine como é importante cuidar do nosso bairro se é em cima da amoreira que vemos como é bonito o local em que a gente mora? 
Infelizmente não tive a oportunidade de fazer as perguntas, nem de contar como na infância esperávamos ansiosos a época das amoras. De como voltávamos com a boca vermelha, camisas manchadas, pernas raladas e um saco de amora para fazer suco. Uma pena que talvez ela tenha aprendido lições de certo e errado apenas num banco de escola. Deveria ser obrigatório que todos tivessem aulas num galho de amoreira.

Renato Teixeira- Amora


 
 

 

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Apaixonei-me por uma amazona: e agora? Guia básico de sobrevivência




Se o máximo de contato com o mundo hípico que você teve na vida foi torcer pro "malhado" ganhar as corridinhas promovidas pelo Bozo na infância, talvez este texto possa te ajudar, caso o amor tenha aparecido a cavalo para você:
Vamos começar pelo básico.

1) Como saber se ela é uma amazona?
A resposta é muito fácil. Basta entrar no Facebook que provavelmente a foto do perfil será dela no cavalo, a foto do mural será dela no cavalo e, se quiser garantir, repare nos perfis dos amigos porque quase todos estarão a cavalo na foto.

2) Já sei que ela é amazona, e agora, o que pergunto?
É preciso bolar uma estratégia.  Perguntar "Você faz hipismo?" é um bom começo. O problema é perguntar que tipo de esporte hípico ela faz. Não pergunte "Você faz tambor?" pra quem faz hipismo clássico e vice-versa. Pode demonstrar total desconhecimento do tipo de mulher com quem você está lidando. Melhor seria perguntar "Qual esporte hípico você faz?" com a maior naturalidade possível, ainda que você não saiba diferenciar o Rodrigo Pessoa do cowboy da Marlboro.

3) Surpresa: existem outras raças de cavalo além do Mangalarga Marchador!
Se esta é a única raça de cavalo que você conhece guarde para si a pergunta. De cada 10 perguntas sobre o cavalo que ela já ouviu na vida de leigos no mínimo 9 foram se o cavalo é mangalarga marchador. 

4) Será que ela já foi pras olimpíadas? Devo perguntar?
A resposta para ambas as perguntas é: provavelmente não. Aqui outra dica importante. Como a maioria de nós só assiste hipismo a cada 4 anos, ficamos com a sensação de que só existe nas olimpíadas. Então é bom saber que nem todo mundo que pratica hipismo já foi ou irá para as olimpíadas. Imagina você na balada dizendo para uma menina que você joga tênis e ela te pergunta: Você já jogou em Roland Garros? Pois é, a proporção é mais ou menos a mesma. 

5) Baloubet du Rouet 
 Se você só lembra de hipismo por causa do refugo do Baloubet nas olimpíadas de Sydney, saiba que ele foi um dos melhores cavalos de salto de todos os tempos e que o erro foi do Rodrigo Pessoa. Colocar a culpa no cavalo pelo mau desempenho do Brasil naquelas olimpíadas não será uma boa aproximação na sua conquista da amazona. Aliás, depois da pergunta sobre a raça do cavalo, essa deve ser a segunda pergunta mais ouvida por quem pratica hipismo. 

6) Amazonas
Estava esquecendo! Amazonas é o estado, lá no norte do Brasil, ou o plural de Amazona. Perguntar "você é amazonas?" é meio analfabetismo geo-hípico e pode contar pontos negativos.

7) Será que ela é rica?
Seria meio hipócrita dizer que o hipismo não é um esporte caro, até porque um cavalo custa mais que um par de chuteiras e uma bola de capotão. Mas nem todos os praticantes têm dinheiro de sobra. Dizer que alguém é rico por que tem um cavalo é como dizer que alguém é rico porque tem um carro ou mesmo filhos. Os custos de manutenção são praticamente os mesmos. Dependendo do cavalo, é claro.

Com um pouco mais de intimidade, você já pode fazer perguntas mais bonitinhas:

8) O site do seu cavalo é .com .com .com .com .com .com .com?
Adoro essa piada, apesar de ser mais legal ouvindo do que lendo.

Uma vez conquistado o coração amazônico com essa ótima piada, deve-se atentar para uma rotina de treino diário e finais de semana na hípica. Vamos ao detalhe de uma vida a dois.

9) Prepare um espaço na casa para o material de hipismo.

Bota, espora, capacete, chicote, luvas, casacas, culotes, camisas, cinto e demais aparatos hípicos. Tudo isso exigirá um local na sua casa. A sugestão é você manter um espaço seu com carvão, lenha, machado, ferramentas, cervejas e afins para evitar que o espaço mais bruto e rústico da casa seja mantido pela sua mulher.

10) Prepare um local para os troféus.
Hipismo dá troféus e essa é uma parte legal. Prepare as prateleiras da casa!
Adendo: Nunca diga que o cavalo faz tudo sozinho. O pessoal fica muito bravo. O cavalo ajuda muito, como carro na F1, mas se alguém que não souber montar o cavalo, ele não passará nem o primeiro obstáculo.

11) Você continuará matando os insetos pela casa
Isto é incrível, mas você não demorará a descobrir. Por mais que ela faça um animal de 500 kg pular correndo um obstáculo de mais de 1,30 metro, caberá a você, companheiro, continuar matando os bichos voadores que apareçam na casa porque ela tem medo.

12) Compre gelol 
A expressão cair do cavalo vai ganhar novos contornos na sua vida. Se você não gosta de mulher com uns roxos de vez em quando é melhor largar mão logo.  

13) Prepare-se para ser fotógrafo, massagista, psicólogo, torcedor, etc..
Você ficará 5 horas na hípica e quando for a vez dela de saltar você terá que filmar e fotografar e não verá nada direito naquele 1 minuto. Depois, cabe a você consolar, aplaudir e incentivar, mesmo não entendendo nada do que aconteceu.

14) Os finais de semana na hípica
Reza a lenda que o Dalai Lama, antes de virar sacerdote, namorava uma amazona, mas não tinha paciência para ficar sábado e domingo vendo gente saltando com cavalo e por isso resolveu virar monge budista.
Prepare-se para ir para a hípica sábado de manhã e assistir 4 categorias (ainda que o instrutor tenha ligado avisando pra ela ir logo pra hípica porque já está chegando a vez dela) até chegar na da sua mulher. Depois esperar uns 20 conjuntos (que não são musicais) até chegar a vez dela. Agora é torcer para o cavalo não refugar, ela não errar e fazer valer o dia na hípica.
Material básico para essa tarefa:
- Uma cadeira de praia, porque em 99% das vezes a arquibancada estará virada pro sol, segundo a Lei de Murphy.
- Um livro, preferencialmente no começo.
- Um iphone, com carregador.
- Dinheiro para comida e bebida. Mais pra bebida.
Arranjar um amigo para conversar é também uma boa opção, mas há que atentar para o fato de que a maioria das pessoas está ali para falar de cavalo. O que faz certo sentido, porque seria como falar de inflação ou literatura no estádio de futebol.

15) E se, com o tempo, eu sentir ciúme do cavalo?
Se você estiver achando que ela passa mais tempo com o cavalo do que com você, pense duas vezes antes de falar o famoso "ou ele ou eu". Há uma expressão caipira que diz: “Cavalo bom é difícil se achar. Mulher bonita é mais fácil. Se encontra em qualquer lugar."  A lógica serve "iguarzinho" pras amazonas...

16) Fim
Se você leu tudo e achou que dá pra saltar os obstáculos de um relacionamento a três (você, ela e o cavalo) sem fazer nenhuma falta, boa pista pra você!