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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Livros sobre o Mar






Meu filho e o mar, em Ubatuba-SP


"Lançamos o barco. Sonhamos a viagem: quem viaja é sempre o mar"
Mia Couto


     Minha relação com o mar nunca foi das melhores. Ainda hoje, toda vez que vou para praia pela Tamoios fico pensando se não seria melhor ficar em Paraibuna, no meio das montanhas. Nascido no Vale, protegido no horizonte pelas serras do Mar e da Mantiqueira, talvez tenha sido a imensidão do oceano que me impediu de apreciá-lo, ou o fato de nunca me sentir confortável com o balanço das ondas. Essa distância da minha cultura caipira do mundo caiçara foi, no entanto, sempre permeada por um fascínio discreto pelas histórias marítimas.
      O primeiro livro sobre o mar que li, pelo que me lembro, foi Vinte Mil Leguas Submarinas, do Julio Verne. Lembro de tê-lo lido muito pequeno, quando ainda nem havia despertado em mim o gosto pela leitura. Sinal de que o livro é interessante mesmo pra quem não tem o hábito de ler. Depois, veio o clássico O Velho e o Mar, de  Ernest Hemingway, que acredito ser o livro mais conhecido sobre o mar. Ainda na faculdade, li Os Velhos Marinheiros, do Jorge Amado, que tem tudo o que se espera de um bom livro sobre histórias de marinheiros.
        Estes dias, quando fui assitir As Aventuras de Pi, me lembrei de já ter lido um livro que tinha uma história muito parecida com o filme. Pesquisando na internet, descobri que o autor literalmente copiou a idéia do livro Max e os Felinos, do Moacys Scliar.  Achei até um vídeo em que o autor comenta o ocorrido:


         Outro livro que fala de um menino sobrevivendo no mar é O Garoto no Convés, do irlandes John Boyne, mesmo autor do best-seller O Menino do Pijama Listrado. No livro, o autor reconta sua versão, na pele de um garoto tripulante, do famoso motim do navio de guerra inglês HMS Bounty, em 1789. O que acho interessante é o autor ter conteúdo para escrever páginas e mais páginas sobre uma pequena tripulação à deriva no mar.
           Meu interesse recente pelas águas do mar foi despertado pela leitura do Cem Dias entre Céu e Mar, do Amyr Klink.  Não imaginava que o livro era tão legal. No começo ficava pensando o que ele contaria dos dias remando sozinho no meio do oceano, mas a narrativa é tão envolvente que saía do trabalho querendo pegar logo o livro e me ver como ele, em meio a histórias de tubarões batendo no casco do barco, baleias curiosas, ondas gigantes e tempestades. Tudo isso é certamente muito mais interessante do que ficar sentado de terno de frente pro computador...
            Inspirado pela leitura do Cem Dias entre Céu e Mar, comprei Paratii, também do Amyr Klink, sobre sua expedição à Antártica, e dois livros que me foram recomendados: A expedição Kon- Tiki, de Thor Hayerdhal, e o A Incrivel Viagem do Shackleton, de Alfred Lansing. Agora é embarcar nessas leituras e deixar a cabeça viajar pro mar.

http://i2artgallery.files.wordpress.com/2012/02/still-no-soul-print-rowe.jpg


sábado, 19 de janeiro de 2013

Livros sobre corrida


 

Quem gosta de correr sabe que a atividade tem um único problema: dura pouco. A não ser que você seja um ultramaratonista, dificilmente você conseguirá correr mais que 1h ou 2h por dia. Uma boa solução que encontrei no auge da empolgação foi me dedicar à leitura de livros sobre o tema. Fiz uma pequena lista daqueles de que mais gostei.

 6- Por qué Corremos? Las causas cientificas del furor de las maratonas.
Martín de Ambrosio e Alfredo Ves Losada
Editora Debate
 POR QUE CORREMOS? (D.AMBROSIO-V. LOSADA)
Comprei este livro de autores argentinos no Uruguai. Não sei se já há versão em português. Apesar do título pretencioso, o texto não responde de maneira definitiva a pergunta do título, mas fala sobre diferentes teorias de forma leve e descontraída. O que mais gostei no livro foram as histórias de corredores famosos e anônimos, às quais os autores recorrem para falar sobre a paixão das corridas. Foi por meio dessas histórias que descobri que a Argentina tem duas medalhas de ouro olímpicas na Maratona!




5- Zen and the Art of Running. The Path to making peace with your pace
Larry Saphiro
Adams Media
Escrito por um corredor, o livro é mais um da série Zen e a arte de alguma coisa. Confesso que esperava mais do livro, que passa boa parte falando sobre problemas enfrentados pelos corredores. O chato é que não acredito que os temas desenvolvidos por ele, como "como acordar pra correr" ou "como não ter preguiça" seja realmente um problema para quem gosta de correr. Acho que a leitura vale para quem quer aprender um pouco mais sobre a cultura Zen. Essa parte, sim, vale a pena. Se você tiver preguiça de ler o livro, aqui vai um ótimo texto sobre o assunto:




4- Do que eu falo quando falo de corrida
Haruki Murakami
Alfaguara Brasil
 
Murakami deve ser, hoje em dia, o maior escritor-maratonista e só por isso o livro já vale a leitura. O livro aborda sua preparação para algumas corridas e demonstra como o fato de correr trouxe influência para sua vida e para seu trabalho como escritor. Para mim, o ponto positivo do livro é sua linguagem literária e o modo como expõe sua vida de escritor e corredor.





3- 50 Maratonas em 50 dias. Segredos que aprendi correndo.
Dean Karnazes
Leblon
Este é o livro mais "esportivo" desta lista, porque fala menos de teorias e mais de prática. É recheado de dicas sobre tênis, alimentação, exercícios e tem até planilhas de corrida - tudo com muita propaganda embutida. O autor é conhecido como o homem de melhor físico no planeta e as provas que ele comenta são mesmo impressionantes. Ele correu uma maratona por dia durantes 50 dias seguidos e, ao longo da descrição de cada uma, vai distribuindo dicas e contando casos muito interessantes.





2- Nascido para correr. 
Christopher Mcdougall
Globo
O livro conta a história de uma tribo indígena mexicana para quem a corrida é parte essencial da sua inserção no mundo. Os ultramaratonistas Tarahumaras haviam ganho uma das mais difíceis ultramaratonas dos EUA e o fascínio de suas histórias de grande resistência fez com que o autor do livro reunisse alguns dos melhores corredores de grande distância dos EUA para competir em território mexicano com os indígenas. Gostei muito das histórias de vida dos ultramaratonistas e da investigação que o autor faz para desvendar o nosso gosto pelas corridas. 




1- Correr
Jean Echenoz
Alfaguara Brasil
 
Acredito que esse seja o melhor livro de corrida desta lista, não só porque uma biografia do Emil Zátopek já valeria a pena, mas porque é muito bem escrito. O livro foge daquele tipo chato de biografia e narra a história do Zátopek com uma escrita muito elegante. A mistura da história de vida do corredor tchecoslovaco com o texto do autor francês produziu um dos melhores e mais emocionantes livros que já li, independentemente do gênero.




terça-feira, 27 de novembro de 2012

Eu acredito em Saci

"Em briga de saci, qualquer chute é voadora"
Ditado caipira

     Já faz uns três anos que comecei a acreditar em Saci e deixar minha imaginação atribuir a esse mito caipira algumas peças de que somos vítimas no cotidiano.
     Desse modo ficou mais fácil saber quem trocou o sorvete por feijão no pote que estava no congelador, quem jogou água no chão do banheiro pra eu pisar de meia, quem desmarcou a página do livro que estava lendo ou quem empurrou minha mão na hora que eu estava abrindo o iogurte e fez o papel rasgar no meio. Isso sem falar nos inúmeros pés de meia perdidos, que ele levou pro meio do mato junto com aquele guarda-chuva que eu tinha certeza que estava no carro.
     Passei a me divertir mais com essa história. Quando vejo um cavalo correndo em disparada sozinho, tenho certeza que em cima dele estava o saci, cavalgando feliz com sua traquinagem.
    Comecei a me interessar por sacis quando ele se tornou um símbolo da resistência caipira contra a invasão mitológica gringa. Em São Luiz do Paraitinga criaram a Sosaci, sociedade dedicada a observar sacis. Que lindo poder falar para os outros que você viu um saci sem o menor constrangimento! Uma das vitórias do movimento foi a aprovação de lei estadual em São Paulo oficializando o dia 31 de outubro como o dia do saci. Com o halloween crescendo absurdamente, é interessante ver a data como uma oportunidade para relembrar nossos monstros da mitologia caipira. 
Para quem gosta do assunto, recomendo vivamente o principal livro sobre sacis: "Saci-Perere: o Resultado de um Inquérito", do Monteiro Lobato. Publicado em 1918, o livro é resultado das cartas de leitores do Estadão com depoimentos sobre o Saci. Logo depois, em 1921, Monteiro Lobato lançou o infantil "O Saci", que também é ótimo, um verdadeiro dicionário das lendas rurais do Brasil. 
A última grande aparição na mídia do Saci foi a campanha para que fosse escolhido mascote da Copa de 2014. Infelizmente não rolou, mas é legal ver que seu mito tem sido redescoberto e revalorizado. Quem sabe um dia não veremos tantos sacis no Brasil como Leprechauns na Irlanda?

Para finalizar, aqui vai a tatuagem de uma grande amigo, caipira também do Vale do Paraíba e um dos caras que mais entende de educação que já conheci, Daniel Leite:


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Estabilidade literária. O que você leu em 2012?

O que você está lendo de bom aí?
imagem: readtoday.com

"Livros não mudam o mundo,
quem muda o mundo são as pessoas.
Os livros só mudam as pessoas."
Mario Quintana

    Quando se fala em funcionário público, uma das primeiras coisas que vêm à cabeça é a famosa estabilidade. O que para muitos é sinônimo apenas de estabilidade financeira, às vezes ganha novos contornos. Para mim, há uma estabilidade fundamental, que por muito tempo ansiei: a estabilidade literária, ou "poder ler o que quiser e quando quiser".
    Comecei a gostar de ler meio tarde, no meio do 3° colegial, mas depois veio faculdade e concurso e acabei lendo muita coisa por obrigação. Hoje valorizo muito a sensação de chegar na livraria e escolher o livro por pura curiosidade, sem ter que resumir ou fazer fichamento porque serei cobrado. Claro que esse período não durará muito, pois em pouco tempo novos cursos virão e terei de me debruçar em leituras obrigatórias. Por isso, quis aproveitar essa boa fase em 2012 para ler autores novos e temas que nada têm a ver com o trabalho.
    Acredito que essa sensação é compartilhada por muitos colegas do Itamaraty, por isso pedi pra quem encontrei online no Fb que me indicassem seus destaques de 2012. Com cada um morando em um canto do mundo e com interesses diversos, o resultado pode ajudar quem quer ler coisa nova.  Não foram poucas as vezes que conversei com colegas que aumentaram muito sua carga de leitura no exterior, até pela escassez de opção de lazer em alguns lugares. Parafraseando novamente Mario Quintana: "O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado". Quem mora em lugares sem muitas livrarias sabe a felicidade que é ver o pacote da Amazon na porta de casa!
Agradeço desde já a colaboração de cada um pro blog! Vamos lá para lista, com nome e lugar em que mora hoje em dia. Tem gente que indicou mais de um livro e, como o importante é passar informação, aí estão todos:

Rodrigo Papa (Brasília)
  • "Travessuras da Menina Má",  Mario Vargas Llosa
  • "Rio das Flores", Miguel Sousa Tavares
Marcela (Japão)
  • "1Q84", Haruki Murakami
Sarah (Brasília)
  • "Maus", Art Spiegelman
 Paulo Thiago (Brasília)
  • "Teoria Geral do Esquecimento",  José Eduardo Agualusa
Igor (Brasília)
  • "Desde que o Samba é Samba", Paulo Lins
  • "A Confissão da Leoa",  Mia Couto
Fabiano (Argentina)
  • "A Short History of Byzantium", John Julius Norwich
Diego Kullmann (Paraguai)
  • "Relampagos", de Ferreira Gullar
  • "Tractatus Logico-Philosophicus", Wittgenstein, (edição de 1968, com tradução e apresentação (excelente!) de José Arthur Giannotti.) *nota do Diego
  • "Bim Bom- A contradição sem conflitos de João Gilberto", Walter Garcia
 Edson (Angola)
  • "Naturaleza, Historia, Dios", Xavier Zubiri.
Luiz Gustavo Bacharel (Brasília)
  • "Apologia de Sócrates" e "O Banquete",  Platão
  • "Quintal de Memórias", Tufy Habib
 Fabiana (Brasília)
  • "A Queda dos Gigantes" , Ken Follet
  • "O Inverno do Mundo", Ken Follet
Helder (Brasília)
  • "The Inner Game of Tennis", W Thimothy Gallway
Daniel (Haiti)
  • "Travesty in Haiti", Timothy Schwarz
  • "Os Crimes de Napoleão", Claude Ribbe
  • "A Ilha sob o Mar", Isabel Allende
Vicente (Brasília)
  • "Proud to be a Mammal",  Czeslaw Milosz
Joaquim (Peru)
  • "The Passage",  Justin Cronin
 Miguel (Holanda)
  •  "Le Monde d'Hier",  Stefan Zweig
  • "El Sentimiento Trágico de la Vida", Miguel de Unamuno
Daniella (Azerbaijão)
  • "The Shock Doctrine - The Rise of Disaster Capitalism", Naomi Klein
Ramiro (Irã)
  • "Jerusalem: a Biography", Simon Sebag Montefiore
Paulo Augusto (Brasília)
  • "On China", Henry Kissinger.
Caio (Kwaite)
  • "Pornopopeia", Reinaldo Moraes
  • "O Império é Você", Javier Moro
Rafael Paulino (Tailândia)
  • "Chabadabadá",  Xico Sá
Irineu (Uruguai)
  • "Viajes y otros viajes", Antonio Tabucchi.  
Maria Luiza (Brasília)
  • "HABIBI", Craig Thompson
  • "Persépolis", Marjane Satrapi
Paulo Henrique (Namíbia)
  • "The Kaiser's Holocaust", David Olusoga
  • "My Father's Country: Story of a German Family", Wibke Bruhns
Alex (Síria)
  • "A Visit from the Goon Squad", Jennifer Egan
  • " The Hunger Games", Suzanne Collins
 Nil (Brasília) 
  •  "O Triunfo do Fracasso", Rüdiger Bilden
  • " O Amigo Esquecido de Gilberto Freyre Freyre", Maria Lúcia Garcia Pallares-burke 
Filipe Abbott ( Brasília)
  • "Arte da Política",  Fernando Henrique Cardoso 
André (Eslovênia)
  • "After Dark",  Haruki Murakami
Juliana (Quênia)
  • "Orlando", Virginia Woolf
Ezequiel (Brasília)
  • "10 dias que Abalaram o Mundo", John Reed. 
Marcelo Gameiro (Brasília)
  • "London Triptych", Jonanthan Kemp
  • "Nemesis", Phiip Roth
  •  "Rock Creek Park", Simon Conway
  • "Snowdrops", Andre Miller
  • "The Sense of an Ending", Julian Barnes
  • "Murder at the Windsor Club", Stephen Stanley
 Paulo Cezar, vulgo eu mesmo (Paraguai)
  • "Eu receberia as piores notícias dos seu lindos lábios", Marçal Aquino
 E você? O que indicaria de leitura para 2013?


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Tardes de poesia em Itajubá

Às vezes um presente te faz buscar na memória todo o seu passado com relação a um tema. Foi o que ocorreu quando fui buscar um objeto misterioso que o correio paraguaio disse estar a minha espera no depósito central. Tive a surpresa de receber um livro de poesias de autoria de um grande amigo, Pedro Ernesto Cursino, que escondia um poeta dentro da sua mais conhecida faceta de grande jogador de rugby e parceiro de infância! E o presente chegou justo numa fase de redescoberta com o universo poético.
Relatos e Devaneios
Minha relação com a poesia, devo confessar, nunca tinha sido muito boa. Não sei por quê, mas sempre tive um bloqueio desde criança. Talvez tenha sido meu exagerado apego à realidade, que até hoje me impede de ir ao teatro ou ver novela, por não gostar de interpretação. Vai saber...
A relação, que já não era boa, foi por água abaixo quando me deparei com esse poema do Drummond na minha vida:

Legado
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
                                                            uma voz matinal palpitando na bruma
                                                                          e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
                                                                   De tudo quanto foi meu passo caprichoso
                                                            na vida, restará, pois o resto se esfuma,
                                                         uma pedra que havia no meio do caminho.

O problema não foi o poema em si, mas o fato dele ter aparecido na segunda fase do concurso do Itamaraty. Pela primeira vez na história os candidatos teriam que escrever 3 infinitas páginas sobre um poema. Eu simplesmente entrei em desespero e escrevi o que pude, sobre o tema do legado, fingindo não ter visto o poema. Há relatos de gritos no banheiro de pessoas em igual situação, ainda durante a aplicação da prova:
 -  C****, eu sou engenheiro, não entendo de poema! Por que justo no meu ano vai cair um raio de um poema!
 Deu no que deu. Nota de 59,75 quando eram necessários 60/100. Fui salvo apenas duas semanas depois, graças a uma marcação errada no meu texto sobre Graciliano Ramos. Nada como uma prosa para ajudar.
 O trauma poético só começou a passar nos últimos meses, quando comecei a ler a obra de Cassiano Ricardo. Apesar de ter estudado na escola com seu nome e de Cassiano Ricardo dar nome a importantes instituições e ruas da minha cidade, como a charmosa biblioteca municipal de São José dos Campos, nunca o tinha lido até muito recentemente. E comecei a ler mais pelo amor a São José do que pelo amor à poesia, mas acabei gostando:

Biblioteca Cassiano Ricardo

"Era em S. José dos Campos.
E quando caía a ponte
eu passava o Paraíba
numa vagarosa balsa
como se dançasse valsa (...)"

(...)Era em S. José dos Campos.
O horizonte estava perto.
Tudo parecia certo
admiravelmente certo."

Trecho de "A Flauta que me roubaram"




Hoje, vindo pro trabalho, lembrei-me dos encontros de família da minha vó Laura, em Itajubá. Incentivados pelo meu pai, os parentes portugueses se revezam em declamar poesias sobre a terra que deixaram, fazendo jus à veia poética que foi herança do meu bisavô, professor de português em Pouso Alegre. Com paixão pela língua portuguesa, entoavam versos de amor à Portugal, com frases de Camões e Fernando Pessoa. Lembro de minha vó, que ouvia tudo atentamente, sempre dizer ao meu pai, com lágrimas nos olhos:
- Ó Walter, esses versos me dão uma saudade de Portugal.
Foi numa dessa ocasiões que decorei pela primeira vez, ainda criança, uma poesia:
 "Ó mar salgado, quanto do teu sal. São lágrimas de Portugal".
Acho que, além de aprender um verso, nessa ocasião pude entender um pouco desse meu gosto pela melancolia, que pelo jeito herdei do sangue português:
Aos meus olhos de menino, era mais divertido ver a desinibição daquelas tias-avó em frente ao público do que propriamente a poesia declamada. Hoje, queria estar novamente nessas tardes de poesia em Itajubá, para que meu filho pudesse ver como era linda a língua portuguesa declamada pelas poetisas da família.

Pra finalizar, um poema de Floberla Espanca, narrado pela atriz portuguesa Eunice Muñoz, que dá um gostinho de ouvir poesia portuguesa lida com sotaque português. No fim, a poesia musicada por Fagner:



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobre árvores


Templo de Angkor- Camboja


"Y nunca olvides que las ciudades no son sino accidentes que no prevalecerán frente a los árboles"

     Deparei-me com a frase acima, de autoria do poeta chileno Jorge Teiller, lendo uma crônica do igualmente poeta, mas paraguaio, Mário Casartelli. Foi também por meio da crônica, publicada no jornal Última Hora, que conheci uma história curta, mas muito bonita, com um título convidativo: "O homem que plantava árvores". A obra, do francês Jean Giono, narra a história de um solitário camponês e sua obstinação por plantar árvores. Os bosques, plantados com paciência e determinação pelo um simples homem, sobreviveram a duas guerras mundiais e trouxeram vida às antes desoladas paisagens.
        Por uma dessas felizes coincidências, estava eu passando pela rua perto de casa quando reparei nesta muda de ipê, lutando para se desenvolver entre o paralelepípedo e o asfalto da rua.
Muda de ipê
Na hora me veio à mente a frase de Teiller e a imagem dos templos de Angkor, no Camboja, com aquelas figueiras enormes ocupando o lugar outrora dedicado aos cultos. 
      Minha paixão pelas árvores vem desde pequeno. Tive o privilégio de crescer em um ambiente com diferentes tipos de árvore. Pude brincar de Robin Hood nos bosques de eucalipto, tive espadas fornecidas pelos guapuruvus, fui Indiana Jones nos galhos de flomboyant e construtor de traves de futebol com bambus. Isso sem contar as árvores frutíferas. Já sabíamos de cór onde podíamos comer cada fruta no bairro.
     Em frente ao quintal de casa havia um flamboyant desenhado especialmente para crianças. Seu tronco não subia para o inalcançável, mas era caprichosamente torto e baixo e nos convidava para subir como se fosse uma simples rampa. Na árvore era possível escorregar, pular nos galhos ou simplesmente ficar sentado conversando. Era ali que nos reuníamos para decidir do que íamos brincar e era dali que ouvíamos o  grito de nossas mães que o almoço esta na mesa. 
      As árvores também me fazem lembrar meu avô. Quando chegávamos em sua casa, ele queria logo que fossemos ver o terreno onde plantava de tudo um pouco. Não me esqueço do orgulho dele em nos mostrar as laranjeiras, limoeiros, bananeiras e pessegueiros produzindo. Hoje entendo melhor seu orgulho e compartilho a paixão por plantar árvores. Ainda tenho um grande caminho pela frente, mas espero compensar meu gasto de papel até o final da vida e ainda deixar um crédito verde para as próximas gerações.
       Em Brasília deixei apenas uma jabuticabeira, infelizmente. As pessoas me tachavam de chato quando eu dizia que a capital tinha poucas árvores. Devo reconhecer que era uma injúria de minha parte, pois a  cidade foi planejada para ter árvores das mais diversas espécies, para estar sempre florida. Foi um privilégio poder acompanhar por três anos os ciclos de florescimento das árvores. Eu já estava começando a decorar a ordem das floradas. Dizem que Burle Marx queria que fosse possível reconhecer a quadra pelos tipos de árvores nelas plantadas, mas como a maior parte das mudas eram exógenas, não sobreviveram a seca que atinge a cidade todos os anos. Creio que foi na década de 1970 que houve um verdadeiro desastre natural, quando centenas de árvores trazidas da mata atlântica morreram na W3 por não aguentarem as condições climáticas do cerrado.
       O motivo da minha bronca com Brasília é que há muito espaço mal aproveitado para plantar árvores, principalmente na Esplanada dos Ministérios. Não vou com a cara daquele chão batido, com cara de estacionamento. Para mim, a Esplanada seria muito mais bonita com bancos, árvores e passeios. Lembro que no documentário "A Vida é um Sopro", sobre a obra de Niemeyer, o ilustre arquiteto afirma que é besteira criticar a Praça dos Três Poderes porque nela não há árvores. Para ele, o importante é a beleza da arquitetura.
       Deixa estar, sabichão, um dia as árvores prevalecerão.



Quanta gente, quanta alegria!







Link para o livro "O Homem que plantava árvores":  http://www.ecocidio.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Giono-Jean-O-Homem-Que-Plantava-%C3%81rvores.pdf

Link para crônica da Mario Casartelli ( http://www.ultimahora.com/notas/497790-Elogio-de-los-arboles

Adendo:
O legal de ter um blog é poder aprender coisas novas com os amigos que lêem o que você escreve.
Sobre esse texto das árvores, meu grande amigo Luiz Gustavo Givisiez disse-me que eu não precisava ter ido até o Camboja para ver as árvores prevalecendo sobre as construções e me enviou esta foto:



Segundo o Givisiez, vulgo Bacharel, trata-se das ruínas de uma igreja construída lá pelo século XVIII às margens do "Rio das Velhas", poucos quilômetros antes do encontro com o São Francisco. Fica num distrito chamado Barra do Guaicuí, no município de Várzea da Palma-MG (a 307 km de BH).

Incrível! Obrigado Bacha, grande conhecedor do Brasil, principalmente do sertão mineiro!