terça-feira, 28 de março de 2017

Tatuagem do Ironman

               
   Só ontem vi duas críticas a quem tatua o "M dot", símbolo da marca do Ironman, vindo justamente de triatletas. A primeira e mais óbvia resposta é aquele meme "deixa as pessoa". Mas por trás de toda tatuagem há um simbolismo, e ele é diferente pra cada um. Pra mim, o Iron surgiu como um sonho distante, em um período que fui descobrindo capacidades que nem imaginava que tinha. Foi o fim de um ciclo que começou quase morrendo nuns 5km na esteira em 2012 e terminou com a frase "Paulo, You're an ironman", em Floripa, em 2015. Ao mesmo tempo, o IM foi o ínicio de um novo ciclo de diversão, autoconhecimento, amizades e desejo por mais desafios que estou vivendo agora. 


                 Existe aquela piada: "como saber se alguém já fez um ironman? Não se preocupe, ele vai te falar"! A tatuagem não deixa de ser um pouco isso, sem dúvida, mas também é um lembrete a nós mesmos de todo o período de preparação e de tudo o que ele representou. Já fui ultrapassado em uma corrida de 10k por um cara que, ironicamente me olhou e disse: bora ironman! (Lembrei da frase do Homem-aranha: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades). Mas logo em seguida surgiu um outro figura que, mostrando sua tattoo do IM me disse: vamos juntos parceiro, hoje ta dose! 


                A verdade é que sempre haverá alguém que fez mais irons que você, sempre haverá alguém mais rápido, alguém que fez o ultra, mas isso nunca tirará a importância do que sua prova significou pra você. Um das minhas frases preferidas do esporte é do jogador de rugby argentino Tomás Petersen: "O rugby me ajudou a me sentir alguém, e ao mesmo tempo me deu a pauta para não me sentir demais". O mdot pra mim é isso: a lembrança de algo que tenho orgulho de ter alcançado e que, ao mesmo tempo, me faz recordar que pra conseguir algo mais, só mesmo através do esforço próprio!

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O que o ironman e os relacionamentos têm em comum


Uma das vantagens de se ficar horas treinando é o tempo livre que você tem para pensar no que quiser. Foi num destes treinos longos que reparei como o Ironman e os relacionamentos têm muita coisa em comum.

A parte mais importante de um relacionamento e de um ironman, para mim, é o tempo de autoconhecimento que os antecede. Ninguém entra no Ironman sem estar preparado, sem ter passado horas e horas buscando se aperfeiçoar, melhorar seu desempenho, conhecer suas limitações e superá-las. Os treinos diários te fazem mais forte e, mais importante, te dão a confiança necessária para saber que é capaz de encarar a prova e terminá-la. Assim deve ser também o momento que antecede nossos relacionamentos. A época de solteiro é ideal para se autoconhecer, se aprimorar física, cultural e psicologicamente, tornar-se uma pessoa mais interessante e confiante, para aumentar seu leque de possibilidades. Com confiança e auto-estima necessárias, você certamente não se entregará a primeira pessoa que aparecer e não sofrerá as consequencias desta decisão. Assim como fazer uma prova longa machuca que não treinou, enfiar-se de cabeça num relacionamento sem estar bem consigo mesmo te fará muito mal, pois te roubará o poder de decisão sobre os rumos do namoro. Essa etapa, por que não, também é necessária para cometer erros, entrar em provas mais curtas e saídas descompromissadas, sair de sua zona de conforto, descobrir o que você realmente precisa melhorar e, o mais importante, o que te faz bem.

Passado o momento de preparação, é hora de encarar o dia da prova 

A natação se assemelha ao começo do relacionamento. É o momento daquele frio na barriga de nervosismo misturado com o que os americanos chamam de "borboletas no estômago". Você está feliz, mas não sabe como terminará tudo aquilo. Será vai dar namoro ou só iremos sair? Uma vez li uma frase que dizia: todo relacionamento implica ou passar a vida toda com a pessoa ou nunca mais falar com ela, e ambas opções são assustadoras. Nessa hora, mais do que tudo, o que te impulsiona a seguir em frente é a coragem. Você não sabe se completará o ironman ou se terá de desistir, mas a única maneira de saber é tentando e, para isso, vale a pena mergulhar de cabeça, mas sempre com os olhos mirando onde você quer chegar. A natação, como o começo do namoro, é uma dos momentos mais gostosos da prova e você só entra naquele mar porque sabe muito bem onde quer chegar. 

A hora que você saí d`água e sobe na bicicleta é, para mim, o começo do namoro. Já passou o frio na barriga, a agitação e as ondulações do mar ficaram pra trás, e você segue com sua parceira em velocidade de cruzeiro, sabendo que haverá uma grande caminho a percorrer. O começo não é fácil; leva-se um tempo para acostumar com a nova posição. Depois, vem o momento de desenvolver o conhecimento mútuo. Você descobre como atuam em conjunto nas subidas e nas descidas da vida e aprende a tirar o melhor de cada "peça" do companheiro, para que a dupla sempre vá adiante. Pode se tornar, também, a hora da provação: um pneu furado ou é consertado ou pode te fazer desistir da prova, depende da tolerância de cada um pro estrago causado.

O sair da bike e encarar a maratona pode ser vistos como a decisão de casar. Muita coisa já passou, mas você sabe que muitas outras ainda virão. Acho que todo mundo, mesmo os que tem certeza da sua decisão de casar, acabam se questionando: estou preparado? É neste momento que o autoconhecimento se faz ainda mais necessário. É a hora que você olha pra dentro e sabe que está tomando aquela decisão não por carência, por fraqueza, ou por medo da solidão, mas porque tornou-se forte o suficiente para conhecer o seu potencial e ter a confiança de seguir o que seu coração manda.  Assim como a maratona do ironman, o casamento vai te fazer encarar momentos de subidas, de descidas e de caminhar mais lento. Talvez já não haja aquela excitação inicial da natação, mas o frio na barriga é trocado pelo calor no coração de saber que conseguiu chegar tão longe.

Comparo os relacionamentos com o ironman porque discordo da visão dos contos de fadas que diz que quando você encontra o príncipe encantado tudo vira um mar de rosas. Acho que todo relacionamento envolve dedicação diária, comprometimento e esfoço. Eles não são isentos de dor, mas, em compensação, trazem muito mais alegrias a quem os encara. Assim como no tapete do ironman,  deve valer a pena chegar no pórtico do fim da vida e ver seus filhos e netos lhes parabenizando por chegar até ali. 



terça-feira, 9 de junho de 2015

Ironman Brasil 2015- Relato

Assim como tudo relacionado ao Ironman, o desafio de escrever sobre a prova também parece grande. Eu podia simplesmente começar o relato às 7h do dia 31/5 e contar o que houve nas 11 horas e 50 minutos que demorei pra cruzar o pórtico de chegada, mas o dia da prova, pra mim, foi apenas o final feliz de uma jornada que começou bem antes.

Não lembro direito qual foi o dia em que enfiei esse projeto na cabeça. Sei que foi pouco depois da maratona de Assunção, em agosto de 2013. Parece que, uma vez maratonista, eu tinha que ir pra próxima fase do jogo. Havia apenas três pequenos empecilhos: eu não tinha bicicleta, eu estava com o joelho machucado e, apesar de saber nadar, nunca tinha tido aula de natação. O que aconteceu a partir dessa decisão foi a fase de auto-conhecimento mais incrível que já vivi.

A natação eu comecei me inscrevendo na escolinha "Burbujitas", mais perto de casa (infelizmente as outras duas escolas, a "Peixinhos de Jesus" e o "Cocrodilo" ficavam mais longe rs). Este foi, sem dúvida, o capítulo mais difícil do Iron. Aprender a nadar depois de velho é dureza. Quase morri nos primeiros 25 metros atravessados na raia, em setembro de 2013. Se em maio de 2015 eu pude nadar os 3,8kms do Iron (que no Garmin foram 4,2km) eu devo agradecer a Iza, minha namorada, e ao Enzo, meu treinador. Durante essa preparação, a Iza me levou para várias travessias e isso foi fundamental para que tudo ocorresse bem. Ve-la nadando os 24km da 14 Bis me deu o estímulo necessário para sempre ir além nos meus limites. Mas não foi tudo um mar de rosas. Passei muito mal, vomitei nas travessias e duvidei muito de mim. Uma vez, no Rei do Mar, fui me atrever a fazer o Challenge, de 4km, e vomitei 7 vezes durante a prova. Terminei a prova chorando que nem criança, triste de achar que o projeto ia por água abaixo (ok, vou parar de trocadilho).  Até o segurança veio tentar consolar, dizendo que admirava o que havia feito. Mesmo no Ironman 70.3 de Brasília, a pouco mais de uma mês do Iron, eu ainda não estava confiante na natação. Os 1,9km em Brasília foram sofridos pra mim e não me imaginava dali um mês nadando o dobro, mas as palavras do Enzo ficaram na minha mente: "sua cabeça estava focada em nadar 1,9k, por isso os 3,8 pareciam impossíveis. No dia do Iron ela estará focada em 3,8k".  E foi justamente isso que aconteceu!
obs: único arrependimento nesta parte foi não ter treinado ao vivo com alguém corrigindo minha técnica. É o que quero melhorar daqui pra frente. 

A bicicleta foi outro desafio. Não o pedal em si, porque nunca deixei de andar, pelo menos recreativamente. O maior problema é saber qual bicicleta comprar, onde investir melhor dinheiro, como montar e desmontar a bike, etc.. Em Buenos Aires, contei muito com a ajuda do Martin, da loja de bicicleta do meu bairro, que além de cuidar da manutenção me ensinou muito sobre os peças. O Beto, meu amigo de São José, também me encheu de dicas em na prova de Foz. 
Os treinos, estes sim foram dureza. Como aqui sempre treinei sozinho, não quis me arriscar nas estradas. Então fiz todos os treinos no circuito KDT, uma pista com uma volta de pouco mais de 1km. Teve dia de 120km, 150km e até o máximo de 180km, sozinho, dando 180 voltas de 1km. Se a monotonia foi grande, pelo menos o cérebro ficou treinado e o dia da prova com todas as belezas naturais de Floripa foi mais tranquilo. 

A parte da corrida era a que eu mais tinha familiaridade. Tinha corrido minhas duas maratonas muito bem, com o melhor tempo de 3h11 em Assunção. Meu desafio foi acostumar a cabeça à diminuição do ritmo na corrida. Se antes eu corria com o pace perto de 4min, agora sofria para manter nos 5min. Senti na pele o que lia nos blogs, que a corrida sozinha em nada se compara à corrida do triathlon.

Rumo a Floripa!

As semanas que antecederam a prova foram um misto de ansiedade e receio. Ansiedade porque depois de 1 ano e meio o dia estava chegando. Receio porque com a diminuição dos treinos comecei a sentir uma dor incomoda no tendão do pé e como não podia mais treinar muito forte, não conseguia saber o grau que a dor realmente tinha. Tentei gelo, massagem, remédio e nada. Junto com isso, tive gastrite e alergia na semana anterior e até injeção levei. Tentei me acalmar, pois acreditei que era tudo mimimi do corpo querendo fugir da raia. Mas até o mimimi foi intenso, tá louco. 

O voo de Buenos Aires pra Floripa já me fez entrar no clima da prova. Contei mais de 30 bikes no desembarque. Segundo a organização, eram quase 200 argentinos. 
Haja bike!
Chegando em Floripa, conheci o pessoal da assessoria do Enzo Amato, meu treinador. Conheci o Enzo procurando algum técnico na internet que passasse os treinos à distância. Eu estava treinando com o Henrique Dantas, amigo e ótimo treinador que me deu toda a base da corrida, mas quando falei a ele que iria começar no triathlon, ele me disse com toda sinceridade que deveria procurar alguém que pudesse me ajudar com a natação e o ciclismo, pois ele ainda não tinha a experiência nessas modalidades. Assim, pesquisando na internet, conheci o Enzo e logo de cara gostei da sua filosofia. Desde o início de 2014 comecei a seguir as planilhas que ele me enviava por email. Fui conhece-lo pessoalmente apenas no dia anterior a prova em Floripa. Falei pra ele: você manda na minha vida ha mais de um ano e nunca havíamos nos visto!
Ter a confiança nos treinos que o Enzo me passou foi fundamental para a preparação. Agradeço demais por ter tido um técnico tão competente e compreensivo durante esta jornada! 

Na sexta-feira anterior à prova, fizemos uma reunião em que cada um repassou a estratégia que adotaria na prova e com as dicas dos mais experientes pude planejar melhor o que fazer no domingo. Sempre treinei sozinho e estar em equipe numa prova tão importante assim foi muito legal, pois pude dividir minha ansiedade e aprender novos detalhes. E quando falo detalhes, parece besteira, mas até com que mão segurar o relógio quando sair da natação é objeto de análise e planejamento.

Um frase que ouvi do Enzo na reunião me acompanhou durante toda a prova e fez a diferença pra mim: treinado vocês estão para completar, podem confiar. Vai bater o cansaço e surgir a dúvida, mas lembre-se que vocês estão treinados pra isso. 

O sábado foi dedicado à família em Floripa e em ajustar os últimos detalhes da prova. É impressionante a quantidade de pessoas que você vê treinando há poucas horas da prova. Fui entregar minha bike às 18h30 do sábado e havia gente correndo, pedalando. Minha estratégia foi descansar ao máximo.

O momento de maior tensão foi a noite de sábado. Nunca tive problema pra dormir, mesmo em dias importantes. e às 21h já estava deitado, pronto pra dormir, mas nada de o sono aparecer. Foi batendo um desespero. Já era quase 23h e comecei a contar quantas horas me sobraria de sono, uma vez que o despertador estava pras 3h45 da manhã. O desespero foi crescendo, acordei a Iza, reclamei, chorei e nada. Comecei a ler pra ver se o sono vinha e quando vi já tinha lido 70 páginas. Preferi não olhar pro relógio, mas acho que só fui dormir depois da meia-noite. 

A Prova

De repente, o dia com o qual sonhei a mais de um ano chegou. Imagina você acordar, dormir, comer, treinar e descansar mais de 500 dias só pensando no dia 31/5 e assim, como quem não quer nada, ele chega.

Lá fomos nós em grupo pra prova. 5h30 da manhã e já estávamos em Jurere, e a prova só começa as 7h. Essa 1h30, que parece muito, voa como se fossem 5 minutos. Última revisão na bike, colocar a roupa de borracha e rumo à praia. 

Sempre fiquei muito nervoso antes de competição. Vou no banheiro umas 50 vezes, mas nesse dia uma paz celestial parece que invadiu o meu corpo. O alivio de saber que o dia tinha chegado me acalmou. Estava, além de tudo, muito feliz! Dei um beijo na Iza e pensei: quando encontrá-la de novo, serei um Ironman!

A natação foi mais tranquila que imaginei. Como não tenho nenhuma ambição de tempo, me preocupei em nadar sem passar mal nem me perder muito. Saí do mar com 1h22 e muito feliz. Lembrei de como temi por essa natação e sair inteiro dessa parte deu um gás. Na hora da transição para o ciclismo, quem nada mais fraco como eu tem aquela sensação de chegar no terceiro dia de promoção de bicicletas do Carrefour: ainda tem algumas, mas maioria já foi embora. Fiz tudo tranquilo, com o pensamento de que era mais importante meu conforto do que alguns minutos salvos na transição.

No ciclismo, o lindo percurso ajudou a passar o tempo. A monotonia dos meus treinos em pista foram muito úteis nessa hora. Tudo ia bem até o km 100, quando o cansaço deu seus primeiros sinais. Na minha inocência, achei que a dor e o cansaço só apareceriam na corrida, mas meus colegas de equipe me alertaram que já na bike você começa a sentir. Mantive um ritmo acima do que estava esperando e fui bem até o km 170, quando desejei estar tranquilo no meu sofá comendo pipoca. A dor da posição do corpo na bicicleta beirava o insuportável e o pensamento de que ainda haveria uma maratona pela frente me fez ter vontade de ir embora pra casa.

Ao entregar a bike após 180km, um misto de alivio e desespero. Alivio porque são tantos os problemas que podem aparecer no ciclismo, que entregá-la inteira, sem pneu furado e nada quebrado é uma benção.  O desespero era pelo fato de que teria 42km de corrida pela frente. O que me fez começar a correr foi, sem dúvida, a frase do Enzo: treinado você está! 
Bom, já que ele diz né, vamos lá.

A corrida começa em direção a Canasvieiras e logo nos primeiros 5 km têm duas subidas terríveis, Nem me arrisquei a correr, subi andando mesmo. Estava indo tudo bem, a dor no calcanhar estava controlada graças ao remédio que meu irmão me deu nos dias anteriores. Estava indo bem, feliz de estar correndo. O problema foi que as subidas e paradas de Canasvieiras me puseram pra baixo. Estava correndo a 5m30s de pace e caí pra 8min. Bateu uma baita tristeza. Queria fazer a maratona sem sofrimento, queria terminar correndo, Poderia ser devagar, mas queria correr e não estava conseguindo. Nessa hora pensei: ferrou, vou terminar andando tudo isso! Foi aí que parei num posto de hidratação, comi meu gel, sal, laranja, e tomei pepsi tudo de uma vez. Acho que meu cérebro pensou: eita porra, esse cara quer correr mesmo! Nessa hora eu renasci e voltei devagar, até encaixar o pace de 6min, que levei até o fim da prova quase. Encontrei os amigos da assessoria que me deram o incentivo que faltava para animar e por o corpo em luta de novo!
A parte da corrida é muito interessante, porque você consegue prestar mais atenção no ambiente. Tem gente que parece que está acabado, passa 20 minutos e ela te ultrapassa como se fosse o Usain Bolt. Tem hora que você desanima demais, hora que reage e ultrapassa quem acabou de passar por você. O legal do Iron é que você sabe que aquela pessoa que você está vendo também passou por muitas coisas para estar ali com você. Ninguém está ali por acaso, são histórias e mais histórias de vida e superação.

Parei de olhar o relógio lá pelo km 30. Meu pace estava caindo e não queria me pressionar mais. Não tinha mais idéia de quanto tempo de prova nem da minha velocidade. Achei melhor ignorar os parâmetros e focar em continuar correndo. Tentei ignorar também o tiozinho que vendia pipoca e quentão ao lado da prova com um cheiro filho da puta de gostoso enquanto eu só tinha gel pra comer.

Encontrei o Enzo duas vezes na maratona. Na primeira vez, ele pareceu saindo de trás de um poste e me senti um dos integrantes da Caverna do Dragão vendo o Mestre dos Magos. Na última vez que o vi, já estava no km 40 e pude agradecer todos os treinos que me fizeram chegar até ali. É impressionante o gás que te da ouvir palavras de incentivo. Assim foi também em cada vez que passei pela Iza e por sua família! O carinho que tiveram por mim só podia ser retribuído com ainda mais dedicação.

O último quilometro da maratona é realmente sensacional. Ao mesmo tempo em que prometia nunca mais fazer isso de novo, sentia um orgulho imenso e uma gratidão pela minha saúde e por poder estar ali, a poucos metros de virar um Ironman.

Entrei no tapete procurando encontrar a Iza e sua família e tentando ler a tal sonhada placa: You`re an Ironman! Quando vi o relógio marcando 11 horas e 50 minutos fiquei ainda mais feliz, porque esperava fazer um tempo muito maior. Sempre me imaginei chegando chorando neste pórtico, mas a alegria tomou conta do meu corpo e foi tudo tão surreal que eu só queria sorrir!

video


 São tantas as pessoas a agradecer por ter cumprido este objetivo que farei um tópico a parte!












quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Correr de manhã



A luz da manhã
A planilha marcava 25km de corrida para a segunda-feira. Já tinham sido 100 km de bike no sábado e outros 100 km no domingo. Dias de testar o corpo.
Para correr tudo isso numa segunda, não haveria outra opção que não levantar bem cedo. Depois do trabalho até daria, mas sei que já estaria sem toda aquela energia.
caminho livre!
Nos dias em que há treinos longos, gosto de acordar bem cedo para dar sinal pro corpo de que há algo importante no ar. Parece que funciona. Na época que eu estudava pro concurso era a mesma coisa: avisava pro corpo que havia uma conquista que queria muito que acontecesse, e que o sono e a comodidade teriam que esperar. O dia começava muito mais cedo, para poder fazer tudo com tranquilidade .
Quando deu 5h20 o relógio despertou. Acordar não foi meu problema, pois tinha ido dormir às 21h. Eram 5h50 e lá estava já correndo pelas ruas. Me lembrei de quando, por algum motivo, como vestibular, provas ou fim de festa, passava pelas ruas a esta hora da manhã e via alguns doidos correndo e pensava: por que este idiota não está dormindo?

Hoje, sei que correr a esta hora da manhã tem suas vantagens:
a) há poucos carros na rua, o que facilita cruzar esquinas;
b) não está quente, o que melhora rendimento e ajuda na hidratação;
c) nada te importunou no dia ainda: você não terá uma bronca levada na cabeça, uma discussão boba, uma resposta atravessada para ficar matutando na corrida e atrapalhando o foco nas belezas da cidade;
d) as pistas não estarão lotadas de gente;
e) há um olhar amigável das pessoas que correm neste horário: elas sabem exatamente que a corrida é importante para você ao ponto de estar naquela hora, naquele lugar, correndo;
f) o por do sol é legal, mas a luz da manhã me agrada mais. É uma sensação de começo, não de fim;
g) não importa o que aconteça no trabalho, não importa uma reunião surpresa, seu exercício terá sido feito. Suas horas dedicadas a você estão garantidas neste dia;
h) você verá muita gente destruída pela noite anterior, principalmente bêbados voltando de balada, e vai agradecer pela sua opção saudável.

Gente que corre cedo
No treino desta segunda, teve uma hora que a dor começou a aparecer e os treinos do fim-de-semana quiseram cobrar seu preço. Neste momento foi que cruzei com mais um destes personagens anônimos que vemos correndo e que, de alguma maneira, nos marcam. Este senhor da foto estava, às 6h30, correndo num ritmo de deixar muita gente pra trás. O encontrei bem na hora que estava indo de um parque para o outro. O segui por um bom período e foi muito inspirador ver seu esforço nesta idade. Ainda não sei o que será do meu futuro, mas quero estar nesta forma!

 Depois de cumprida a meta, lembrei de mais um bom motivo de correr de manhã: comer muito no café da manhã!


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

E a bicicletaria do seu Pedro fechou



Eu e o Jovem


Uma das primeiras lembranças que tenho da infância foi o dia em que aprendi a andar de bicicleta. A rua cheia da molecada do bairro jogando folhas pro alto, meu pai dando o empurrão inicial e aquele misto de adrenalina, aventura e felicidade que sentimos neste momento tão especial nas nossas vidas. Lembro direitinho daquela chuva de folhas secas na rua, porque o mais novinho da turma estava andando sem rodinha pela primeira vez.
Desde essa minha primeira bicicleta, todo pneu furado e peça quebrada eram arrumadas na bicicletaria do "Jovem". Na verdade, nunca soube o nome do estabelecimento, mas chamávamos assim porque o seu Pedro, dono da bicicletaria, chama a todos de jovem. Teve uma época que desconfiei que meu pai ia lá só pra ser chamado de jovem.
Quando comprei a primeira bicicleta pro meu filho, fui com meu pai e ele na bicletaria do jovem arrumar. Foi um encontro geracional muito emocionante. 
Nesta época, ainda ficava numa esquina apertada, com bikes saindo pela janela. Lá de dentro, em meio a peças e bicicletas, emergia o seu Pedro, com sorriso nipônico de felicidade, chamando nós três de jovens. 
No último ano, com a volta da minha paixão por bikes, voltei a frequentar mais constantemente a bicicletaria, que havia se mudado para duas esquinas aos lado, num lugar mais amplo.
Seu Pedro arrumou a bicicleta pro meu primeiro triatlhon e também pra prova de 6h de mountain bike que participei.  Adorava ouvir as histórias das provas longas e falava "cê é louco, jovem", apesar dele mesmo já ter ido pra Caraguá e Campos do Jordão de bicicleta.
Na última vez que fomos lá, levei meu irmão, que não lembrava de lá, pra montar a bicicleta nova dele e ele ficou maravilhado. Voltou mais umas duas vezes. O Seu Pedro, no entanto, já havia dito que se mudaria, pois estavam assaltando muito no bairro.
Hoje, quando fomos de novo, eu, meu irmão e meu filho, nos deparamos com um recado na porta, que quebrou nosso coração. O Jovem encerrou as atividades depois de 20 anos. A melancolia tomou conta do carro, e rumamos pra arrumar a bike na Decathlon, entregues ao capitalismo da loja gigante, com saudade da tradicional bicicletaria do bairro.
O recado na porta
O bom que sabemos que o Seu Pedro está com saúde, apenas se aposentou, depois de ter formado os filhos com o trabalho na bicicletaria, como orgulhosamente nos contava. 
Ale e sua bike da Decatlhon, onde aprendeu a andar sem rodinha em em meio a prateleiras de produtos



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Estreiando no Triathlon: X Terra Paraty

Depois de muitos meses de natação e alguns de ciclismo, chegou a vez de juntar tudo e participar da minha primeira prova de triathlon. Tinha me inscrito no XTerra Paraty por apresentar distâncias não tão longas, o que pensei que poderia ser um bom começo. Estavam previstos 1,5K de natação, 29K de ciclismo e 7,5K de corrida. O problema é que o ciclismo seria mountain bike e eu não estava nada preparado pra o que estava por vir.
O primeiro desafio foi preparar a mala antes de viajar. Meu medo era esquecer algum item essencial para alguma das três etapas. Quando era só corrida era tão mais fácil arrumar a mala...
E apesar de levar tudo certinho, na prova você fica se sentindo muito iniciante ao ver os participantes com todos os itens de triathlon que você ainda não tem. Como o investimento é muito alto, vou comprando aos poucos e ajustando o que dá. A bike foi da minha cunhada Ana, a quem muito agradeço!
A natação, que sempre foi minha maior preocupação, foi tranquila. Sabia que eu não ia ser rápido, então minha alegria foi não terminar muito atrás e terminar bem fisicamente. O mar estava uma maravilha para nadar, sem ondas e raso até demais.
 A transição pra bike também foi boa. Consegui fazer rápido, só que vi que muita gente já havia saído de bike e tentei me tranquilizar.
Na parte do ciclismo foi que o bicho pegou. Eu já tinha feito uma prova de Mountain Bike de 21Km no Paraguai e sabia que seria duro, mas não esperava um trajeto tão técnico e tão cheio de subidas.
 Os primeiros quilômetros foram bem e consegui colocar um ritmo legal, fazendo algumas ultrapassagens. Depois, foi morro atrás de morro. Pelos meus cálculos, passei quase 40% do tempo empurrando a bicicleta morro acima. Um saco! Fiquei de muito mau humor. O pessoal que estava ao meu lado também começou a reclamar muito. Imagino que pros primeiros colocados deve ter sido legal um percurso difícil deste, mas pra galera que ficou lá trás como eu ficou uma ponta de decepção por ter que levar a bike na mão por tantas partes do trajeto. Tombos eu levei quase 10, principalmente por não conseguir tirar a sapatilha a tempo do pedal. Derrubei um cara também sem querer e fiquei muito preocupado de tê-lo machucado ou quebrado a bike, mas ficou tudo bem. Minha corrente enroscou na catraca e, depois do último tombo, a marcha parou de mudar! Tudo isso era menos pior que furar o pneu, eu pensava, e continuei a pedalar. O grande problema pra mim foi que, além de perder muito tempo de prova subindo a pé empurrando a bicicleta, acabei gastando muito a perna e tirando forças pra minha melhor parte, que seria a corrida.
O trajeto não acabava nunca e comecei a me preocupar em estourar o tempo limite pra entrar na área de transição, uma vez que meu relógio também quebrou.
Demorei tanto na parte do ciclismo que, quando cheguei na transição, meu irmão perguntou se eu tinha errado o caminho rs.
 A definição da mountain bike pra mim foi uma máquina de moer carne. Ela acabou com minhas energias, meu humor e minha moral pro resto da prova.
Quando saí pra corrida, comecei a correr com raiva e tentei imprimir o ritmo em que estou acostumado a correr, mas só consegui até o segundo quilômetro. Depois, corri do jeito que deu, torcendo pra acabar logo. Ao final, foram 3h40min de prova. Não estava preparado psicologicamente para tudo isso. Por sorte levei doce de banana o suficiente pra comer durante a prova.
A torcida dos amigos e parentes na transição ajudou bastante. Saber que eles estavam lá me esperando deu ânimo para terminar a prova.
Nos quilômetros finais da corrida, lembrei muito do livro que estou lendo, sobre o corredor olímpico norte-americano Louis Zamperini. Após 43 dias sobrevivendo num bote no mar, depois de seu avião ser abatido na Segunda Guerra, ele passou mais de dois anos sofrendo em campos de prisioneiros mantidos pelos japoneses. Sua família já recebera a notícia de que ele estava morto. Ao final da guerra, quando souberam que ele estava vivo, seu pai falou: "Eu sabia que aqueles japoneses não iam quebrá-lo. Meu filho é um cara durão".
Essa frase ficou na minha cabeça a corrida toda. Eu sempre leio livros sobre pessoas em situações extremas, porque ajudam a colocar em perspectiva as pequenas dificuldades que enfrentamos em algumas provas.
Eu queria ser um cara durão, queria  terminar aquela prova!




Fui o 88 colocado em 120 homens, mas agora posso dizer que sou um triatleta! Valeu a pena o perrengue.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Correr sem saber o resultado


Ontem fui assistir a uma corrida feminina em Assunção e, na hora da premiação, foi aquele rolo. O sistema de cronometragem claramente não funcionou e começaram a premiar equivocadamente corredoras que chegaram depois das verdadeiras ganhadoras. Houve muita reclamação e resolveram, por fim, suspender a premiação até que resolvessem o problema todo. Isso também já havia me passado num duathlon aqui. Fui embora só imaginando minha colocação, sem saber exatamente como fui.
No Facebook da empresa que organizou a corrida, além de muitos protestos, há pessoas defendendo a empresa, afirmando que a corrida era apenas uma diversão e que as pessoas poderiam controlar seu próprio tempo. Esse debate me pareceu muito interessante. Realmente corremos só por resultados? Depende!
Neste mês participei de uma corrida beneficente em prol de uma corredora que está hospitalizada. Desde o começo, os organizadores afirmaram que a corrida era simbólica e que, por isso, não haveria premiação, apenas sorteio de brindes. Fiz minha melhor corrida em muito tempo, chegando em 5° lugar. Na chegada, nem premiação, nem linha de chegada, nem nada. É meio estranho, mas era o combinado e, sobretudo, era por uma ótima causa. Não era porque não haveria troféu que deixaria de dar meu melhor. Corri por resultado sim, mas não pelo reconhecimento dele.
Agora, é muito diferente quando você se prepara para uma prova competitiva, em que há premiação para as diversas categorias. Quem treina sabe o quanto visualisamos o dia da prova em nossa cabeça. Quando o corpo está pedindo arrego, nosso cérebro nos lembra que cada treinamento tem um motivo específico: você quer emagrecer, você quer completar uma prova, você quer baixar seus tempos ou você quer chegar entre os primeiros da corrida.
O erro de cronometragem não é apenas um detalhe numa corrida "muito divertida e bem organizada" (palavras de algumas corredoras) como foi a corrida feminina. Se você coloca pessoas para competir e as vende este produto, a falta de resultados é um desrespeito tremendo com quem se preparou. Mais desrespeito ainda é premiar quem chegou depois de você, como foi o que aconteceu ontem. 
Uma das participantes, que acho melhor não chamar de "corredora", afirmou até que era falta de humildade as pessoas reclamarem de não ter o resultado correto. Falta de humildade? Querer ganhar no esporte agora é ruim? Vamos todos ser humildes e correr mais devagar que o próximo...Acho que ela não entendeu bem o espírito das reclamações porque não sabe o quanto é frustrante ver seus objetivos perdidos por uma má organização da prova. 
A corrida é democrática justamente porque engloba todos os tipos de objetivo, desde apenas completar a prova até chegar entres os primeiros. Mas se você, organizador, quer atingir apenas o primeiro grupo, deixe isso claro na inscrição. 
Correr sem se preocupar com resultados também é legal, mas para mim funcionou por ser uma causa nobre. Sou corredor porque gosto de competir, mesmo que não chegue entre os primeiros.

terça-feira, 18 de março de 2014

Estreiando no Biathlon: Rei e Rainha do Mar 2014



 



Domingo foi dia de fazer as pazes com o mar. Depois da experiência não muito feliz da minha primeira travessia marítima (http://caipirajovem.blogspot.com/2013/12/fuga-das-ilhas-2013.html) , resolvi encarar de novo um desafio no mar como preparação pro Ironman 70.3 de Foz do Iguaçu, no final de agosto.
Inscrevi-me no Beach Biathlon do Rei e Rainha do Mar, no Rio, que teve 1,5K de natação e mais 2,5K de corrida na areia, saindo do posto 12 do Leblon e terminando no Arpoador. Foi uma ótima oportunidade para nadar de novo e testar minha corrida na primeira prova de esportes combinados da minha vida.
Tenho feito aulas de Crossfit e, em algumas delas, há treinamentos de resistência, que combinam exercícios físicos com tiros de corrida. Eles têm sido muito úteis para acostumar meu corpo a correr cansado. Para quem veio da corrida, como eu, e quer começar no triathlon, a idéia de iniciar a corrida já tendo feito outra atividade é completamente nova. Tenho treinado acostumar pernas e, principalmente, a cabeça, de que meu ritmo na corrida será outro daqui pra frente, não àquele de um corredor descansado na hora da largada da prova.
Antes da prova, tomei uma precaução que fez toda a diferença. Como havia passado muito mal na última travessia pelo enjôo que sofri no mar, consultei um médico sobre algo que poderia tomar. O remédio foi milagroso e não senti absolutamente nada desta vez. Nadar sem passar mal já foi uma vitória em si.
Desde a retirada dos kits, no sábado, o comentário geral é que teríamos prova com o mar bastante calmo, o que me aliviou. Depois de nadar numa “máquina de lavar” na Barra do Sahy, queria experimentar um mar calmo. Disseram até, em tom solene, que foram vistas baleias no mar do Leblon naquele dia. Não entendi a relação das baleias com a prova, mas confesso que nadei com aquilo na cabeça. Sempre quis nadar com uma baleia, mas e se ela me pegasse?
Na hora da largada, conferi chip, touca, óculos e vaselina, nas pernas e nos braços, para evitar a fricção na hora da natação e da corrida. Resolvi nadar de sunga, na verdade por falta de opção, mas muita gente nadou com roupa de natação e dizem que faz uma boa diferença. Preciso comprar uma, mas como diz aquele ditado pra quem começa no Triathlon: ”bem-vindo ao triathlon, agora vocês está falido”. O jeito é ir comprando os itens aos poucos.

Resolvi testar meus outros óculos desta vez, um mais parecido com uma máscara. Apesar de a recomendação ser utilizar óculos com vidro polarizado em dias de sol, fui com meu óculos de lente clara, porque para mim é mais fácil enxergar com ele. Já sou míope, aprendendo a me guiar no mar, e ainda ter que ver tudo meio escuro?!
Dada a largada, esperei o pelotão sair em disparada para depois encontrar calmamente meu lugar no mar. Outra mudança de hábito da corrida, em que gosto de sair sempre com o pelotão de frente. Na natação, se você não tem velocidade, sair na frente é participar de um festival de socos e pontapés, involuntários ou não.
Os primeiros metros até fazer a curva na bóia foram novamente duros. Nadar contra as ondas não é fácil e engoli muita água. Acontece de tudo nos metros iniciais. Você está rodeado de gente, o mar vem contra, seu corpo balança de mais, seu corpo ainda está processando que você vai começar uma atividade física. Uma confusão de sentimentos que mexe com a cabeça. Fiz uma coletânea das frases que meu cérebro me disse nesses metros iniciais da prova:
- Que m****, não consigo nadar mesmo no mar!
- B****, paguei caro na inscrição do ironman e não vou aprender a nadar até lá.
- Investi na bike e nunca serei um ironman! Talvez possa fazer umas provas de duathlon, vai ser divertido. É só bike e corrida, mais legal que nadar.
- Acho que vou desistir, é mais prudente. Pega nada, as pessoas não vão me julgar por isso.
Enquanto meu cérebro fazia esse jogo sujo, continuei nadando até alcançar a segunda bóia, quando a prova então virava uma linha reta até a última bóia, em que viraríamos em direção à praia pra começar a correr.
Em algum momento, que não sei explicar por que, comecei a curtir a prova. Olhava para os lados e o visual estava incrível. A visão do alto mar com muitas pessoas nadando ao seu redor é algo que recomendo para todos que gostam de esporte. É realmente de arrepiar e agradecer por estar ali.
A organização colocou, durante todo o trajeto, monitores da prova em stand up paddles, com cores bem chamativas. Eles foram ótimas referências para mim. Sem saber me direcionar muito bem ainda e sem ver as bóias de muito longe, conseguia me guiar pelos monitores e pelas pessoas ao meu redor. Fiquei feliz em ajudar um nadador que cruzou perpendicularmente meu caminho, mostrando a direção correta. Estava evoluindo!
Após cruzar a última bóia, era hora de chegar na praia e começar a correr. Me esforcei ao máximo para acelerar o nado nestes metros finais de natação e, quem sabe, ganhar umas posições pegando jacaré na onda. Lembrei de por em prática uma dica que vi num blog e tratei de movimentar meus pés e tornozelos circularmente para prepará-los para o impacto da corrida.
Fiz os 1,5K em 31 minutos. Fiquei feliz, porque era o que eu estava programando mesmo. Ainda tenho muito a melhorar, mas só de chegar inteiro na transição já foi uma alegria e tanto.
Correr depois de nadar e correr na areia são duas atividades que este caipira aqui ainda não havia feito na vida. As sensações eram duas basicamente: 1) agora é hora de tirar o atraso da natação e mostrar para que veio, vamos correr! 2) Esse corpo não é meu, essa perna não é minha, ta tudo doendo, quero correr mas esta areia não deixa!
Esses 2,5K na areia foram bem interessantes e um aprendizado muito importante, principalmente para a mente, que reclamou muito de o corpo não atingir a velocidade habitual que tenho na corrida.
Consegui ultrapassar bastante gente, poucos da minha categoria na verdade, que tem média de natação muito melhor que a minha e que eu não teria como compensar com essa quilometragem pequena de corrida. Fiz os 2,5K em pouco menos de 11 minutos.
Para mim, o mais importante do Rei e Rainha do Mar foi que me devolveu a confiança de nadar no mar. Pude realmente desfrutar da prova e fiquei com vontade de voltar e nadar distâncias maiores.
Fiquei muito impressionado com a organização e recomendo a segunda etapa, em agosto, para todos. Junto com o Biathlon, organizaram uma corrida de 5K na areia, provas de stand up paddle e provas de 1K, 2K e 3,5K de natação. Tudo com muito suporte, segurança e, claro, alegria.
Agora, volto a encontrar o oceano em abril, no X Terra Paraty, minha estréia no triathlon. Vamos que vamos!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Fuja da televisão e faça você mesmo

           Estava lendo o livro "The Sports Gene", de David Epstein, para saber mais sobre genética esportiva (óh, jura Pc?, pensei que fosse culinária ou direito marítimo) e me deparei com um conceito que, se me lembro bem, o autor chamou mais ou menos de "piramidização dos eventos esportivos". Epstein argumenta que nos últimos anos, com o aumento dos patrocínios e da exposição na mídia dos grandes eventos esportivos, houve uma concentração enorme de prêmios em dinheiro e de remunerações no topo da pirâmide, para atletas como Tiger Woods, Usain Bolt e Neymar, e sobrou pouco para você, para mim e para o lateral esquerdo do futebol de várzea da sua cidade, que estamos na base da pirâmide esportiva. 
"Ah, então você quer ganhar dinheiro nessas suas corridinhas de final de semana, Paulo Cezar?"
           O problema maior disso não está apenas em ganhar ou não prêmios monetários em corridas, até porque com minhas colocações não daria pra cobrir nem o valor da inscrição. O drama da situação atual reside no fato de que, com o dinheiro investido no esporte concentrado em grandes atletas (que conseguem mais exposição mundial pela TV e geram obviamente mais renda e propaganda) estão diminuindo os incentivos a atletas amadores. E, segundo Epstein, não é só pela grana, mas pelo prestígio. Se eu posso ficar em casa e ver ao vivo na TV o Messi driblar meio time adversário de uma forma fantástica, isso não é melhor do que eu tentar jogar meu futebolzinho sem graça? O autor, no caso, fala sobre uma legião de Quaterbacks frustados que deixam de jogar em suas cidades porque o espetáculo provido pela Tv tem apelo muito maior. Nessa parte creio que o conceito de BIRGing (Basking in reflected glory), que tratei em outro texto, se encaixa muito bem. BIRGing é a associação que um indivíduo faz com o sucesso de outro de tal maneira que aquele sucesso seja sentido como seu também. Eu, com a camisa do Barcelona em casa, me sinto fodão porque o Messi fez quatro gols.
            Não era assim com as gerações passadas. Cresci ouvindo história do meu pai e dos meu tios sobre os gloriosos dias do futebol amador de Itajubá, em que o estádio ficava cheio pra ver os times da casa jogarem. Claro que eles gostavam de assistir os jogos do Botafogo e os lances do Pelé, mas como a facilidade não era a mesma que hoje, o jeito era fazerem eles mesmo o campeonato local para se divertir. E isso se reproduzia em todos os esportes. Com a TV mostrando ao vivo o Usain Bolt, ninguém se interessa em ir presenciar o cara mais rápido da sua cidade contra o cara mais rápido da cidade vizinha.  
"Ah, então você está falando que a tecnologia que nos permite ver ao vivo o Bolt é ruim e que seria melhor assistir a Chico Bento x  Zé Lelé na minha cidade"?
          Não, ela é ruim à medida que te desincentiva a dar o seu melhor e terceiriza sua glória e realização pessoal.
              E que fique claro que não é só a TV, pois a internet nos permite viajar sem sair do lugar, ser agricultor sem plantar sementes, ser soldado sem saber da tiro, etc...
           Hoje li o texto "6 verdades chocantes que irão fazer de você uma pessoa melhor", no link http://www.libertarianismo.org/index.php/artigos/6-verdades-chocantes-que-irao-fazer-de-voce-uma-pessoa-melhor/
              O texto começa com o autor pedindo pra que listemos 5 coisas impressionantes sobre a gente mesmo e segue na linha de "depende só de você ser uma pessoa mais interessante, mas isso custa tempo então saia da inércia comece logo".
              Numa parte da sua argumentação, o autor afirma que muitos vivem se perguntando “Como eu consigo que garotas bonitas gostem de mim?” ao invés de “Como eu posso me tornar o tipo de pessoa que garotas bonitas gostam?”. Essa parte do texto tem tudo a ver com um filme que vi esse final de semana e me fez pensar muito na vida, chamado "A Vida Secreta de Walter Mitty". Walter é um funcionário apagado e sem graça de uma revista e vive tendo ilusões com aventuras que façam com que sua amada lhe dê atenção. Ao longo do filme, ele acaba tendo que participar realmente de aventuras e vai parar num vulcão da Islândia, num helicoptero na Groelandia e até mesmo no Afeganistão. Ao atualizar seu perfil numa rede de namoro na internet com esses fatos novos, Mitty se torna objeto de desejo das mulheres e ganha a admiração de sua amada. É a consagração da história "faça você mesmo coisas espetaculares que se tornará uma pessoa melhor e conseguirá o que quer".
              Meus últimos três meses, com o joelho machucado, foram de muitas horas de televisão. Se tivesse que listar coisas impressionantes sobre mim nesse período poderia dizer: 1- Vi um cara ganhar um Tour de France, na ESPN 2 - Vi uns caras subindo o Everest, no Discovery 3- Vi um capitão ser sequestrado por piratas, no Cinema, etc..   
               Com a forma física recuperada, prometi a mim mesmo que a TV será só de vez em quando e que iria parar de reclamar da vida. Comecei a treinar mais, a aceitar mais convites pra sair de casa e a parar de ter preguiça de sair do sofá e procurar algo legal pra fazer.
             Não sei como dizer isso sem ser constrangedor, mas acredito que as coisas nessa vida são como filme erótico: por mais que seja muito legal ver na TV e que a atriz seja linda, é muito melhor fazer você mesmo.
              Não é um lema que você possa escrever na parede da sua casa, mas com ele em mente você poderá dizer, quando chegarem seus últimos dias, "fiz mais do que vi gente fazendo".

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

De bicicleta para o trabalho

         
 
           Ir de bicicleta para o trabalho era um desejo antigo. Eu sou uma das pessoas que mais odeia trânsito e direção, mas isso não havia se traduzido em abandonar o carro em casa e pegar a bici para ir trabalhar. Tenho acompanhado o aumento da cultura da bicicleta em Assunção e adoro passear com ela nos finais de semana por aqui, mas foi o meu carro batido o empurrão que faltava para pela primeira vez ir pedalando pro trabalho.
             Os argumentos contra a bicicleta no trânsito são conhecidos, mas é possível rebatê-los com um pouco de boa vontade:
           1- O trânsito é perigoso para bicicletas
           Lógico que a frase é verdadeira e, por isso, o jeito é ir por ruas menos movimentadas e ter atenção redobrada nos cruzamentos. Minha estratégia é pensar que todo motorista é um maluco em potencial e que, por mais que desejemos igualdade no trânsito, dificilmente a bicicleta será respeitada como um carro. Não acho que adianta peitar, tem que se cuidar a cada esquina.
           2- Vou demorar mais pra chegar
            Foram exatos 15 minutos de casa pro trabalho na ida e 20 na volta. Agora preciso marcar com o carro, mas creio que não será muito diferente. Foram 4,7 quilômetros rodados. Com a bike de corrida pude pegar mais velocidade e mais vento, mas com a mountain bike pude pular obstáculos e isso compensou a velocidade menor.
           3- Vou chegar suando e fedido
            Essa era a grande preocupação que eu tinha, uma vez que a cidade é muito quente nesta época do ano e não há chuveiro na Embaixada. Saí um pouco mais cedo pra não pegar tanto sol e fui surpreendido positivamente pela capacidade do vento em não me deixar suar. Só suei mesmo na cabeça e nas costas, por causa do capacete e da mochila. Tomei um banho de gato no banheiro e pronto, resolvido.
            4- Eu trabalho de terno, não dá pra ir de bicicleta
            Vim pedalando com uma roupa esporte leve e coloquei o terno na mochila com cuidado para não amassar. O chato é arrumar a mochila e prestar atenção para não esquecer nenhum item do vestuário, pois a opção de voltar pra buscar é meio cruel. No segundo dia havia esquecido de por a gravata e voltei duas quadras para buscar. No terceiro, me distrai e quase pus o paletó descombinando com a calça. Também procurei chegar antes do Chefe, para não ser visto desfilando de bermuda no trabalho.
Minha bike na minha garagem. Dá pra ter ideia de quanto espaço um carro ocupa pra levar a mesma pessoa.
   Os argumentos contra são conhecidos, mas só mesmo andando de bicicleta para se lembrar dos elementos positivos.
        1- A sensação de fazer algo diferente
         Eu tenho a impressão de que nada é tão mecânico na nossa vida como a ida pro trabalho de carro. É a hora do dia que nosso piloto automático está no nível máximo. Poderíamos dirigir de olho fechado até. Quantas vezes já errei o caminho quando tinha um evento de manhã porque saí dirigindo automaticamente pra Embaixada! Ir trabalhar de bicicleta rompe com esse marasmo de um jeito muito divertido, que me remeteu às sensações de novidade da infância.
         2- A alegria de pedalar
         Bicicleta para mim lembra lazer e infância. Crescemos pedalando em momentos de alegria e diversão. É sempre em passeios ciclisticos, em parques, na praia, com a família e os amigos. Por mais que tenha usado a bici dessa vez como locomoção pro trabalho, a alegria se manteve presente. Vi esta charge e ela representa muito o que é dirigir x pedalar na cidade: 

    No trajeto,  dei oi para a vizinha e conversamos um pouco (no carro seria só uma buzinadinha né), passei pelo parque e gritei para o professor de tênis, que respondeu alegremente ao meu bom dia! Isso sem contar o aceno dos outros ciclistas, que se alegram de ver alguém na mesma aventura cotidiana. Esses simples e rápidos encontros têm o poder de animar e alegrar o dia. De carro, o máximo que conseguimos é ver através dos vidros o motorista ao lado tirando meleca do nariz enquanto espera o sinal abrir.
     3- Economiza dinheiro
     Foram economizados R$25 por dia em táxi só de ida pro trabalho, o equivalente a uns três livros legais que pude comprar na semana.
     4- Fiz exercícios.
     Essa é a parte mais óbvia e a que me deixou mais feliz, pois deu pra notar uma melhora, ainda que pouca, no meu ritmo de pedalada.
   Espero que essa minha fase de amor pela bike permaneça mesmo quando o carro voltar da oficina!

MInha amada bicicleta



Minhas duas paixões!
            

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fuga das Ilhas 2013


       O mundo da natação sempre foi desconhecido para mim. Quando eu era bem criança, minha mãe foi me levar para a minha primeira aula e eu chorei tanto no caminho que ela desistiu. Lembro exatamente deste dia! Desde então, foram mais de duas décadas longe das aulas, mas de vez em quando nadando por recreação na piscina do clube ou em casa. Mesmo sendo fanático por esportes, nem nas olimpíadas eu me dedicava a ver as provas de natação.
       Um joelho estourado depois da maratona e a vontade de começar a fazer triathlon mudaram esse panorama e me interessei a começar a nadar. O empurrão que faltava apareceu quando duas amigas me falaram da Fuga das Ilhas, uma prova de 1.5K que iria acontecer dali três meses. Se tem uma coisa de que gosto na vida esportiva é de desafio.
        A primeira coisa que tinha que resolver era comprar material e me inscrever numa escola de natação. Coisas simples, mas que se você nunca fez na vida, viram um mistério. Depois de pesquisar, me matriculei numa escola infantil com aulas pra adultos e la fui eu pro primeiro treino.
          Logo na primeira aula achei que a meta a que tinha me proposto, de nadar 1.5k, estava muito longe da minha realidade. Não consegui nem fazer 50 metros direto na piscina, mas daí lembrei que nos primeiros treinos de corrida as distâncias maiores pareciam também inalcançáveis e resolvi confiar no que o treinador dizia.
            Depois de 3 meses de treino, chegou o dia da travessia . O que ajudou na minha confiança foi ter nadado 1.5k direto na piscina duas semanas antes, provando que seria possível cumprir aquela meta. Eu só tinha esquecido de um detalhe: me sinto muito mal no mar!
             Já tinha lido bastante sobre as diferenças entra nadar no mar e na piscina, mas por algum descuido não me fixei no fato de que o mar me deixa tonto, passando mal e com vontade de vomitar. Fui lembrar disso apenas na hora da prova, quando tivemos que nadar uns 200m para a balsa que nos leva para a ilha, de onde começa a travessia.
Atrás se pode ver a ilha na Barra do Sahy, de onde parte a travessia de 1.5K em direção a praia.
              Já na balsa comecei a sentir bem mal e foi inevitável lançar ao mar parte do café da manhã. Para economizar a nojeira deste post, comento logo que repeti a cena no mínimo 8 vezes durante a prova. Isso enquanto nadava! Por um lado, foi ruim perceber que nadar no mar me faz tão mal e que terei que treinar bastante esse ponto se quero mesmo um dia fazer Ironman. O lado bom é que o fato de ter passado tão mal e não ter desistido me fez provar mais uma vez que desistir não é uma opção. Acho que ter jogado rugby, mesmo com dor, me tornou mais tolerante para continuar até o fim das provas mesmo me sentindo muito mal. Foi o mesmo que ocorreu nos quilômetros finais quando corri uma maratona. A vontade era parar, ir pra casa e comer pipoca no sofá, mas pensava em tudo o que tinha feito para estar ali onde estava e não conseguia pensar em desistir. A Iza, que me acompanhou a travessia o tempo todo mostrando o caminho, dizia que estávamos chegando para me animar e eu acreditei nela, mesmo vendo a praia tão longe de onde estava rs.
               O que me aliviou foi saber que entre os participantes foi unânime a opinião de que o mar estava muito mexido naquele dia. Soube posteriormente, também, que a distância marcada pelos gps dos atletas apontava algo como 2k. Claro que isso varia porque há dificuldade em nadar em linha reta na água, o que faz com que cada um tenha nadado uma distância particular. Segundo o site da travessia, meu tempo foi de 48 min. Muito mais do que eu esperava, mas fiquei muito feliz de ter completado.
                  Eis algumas conclusões a que cheguei:

Antes da prova
- Muita gente reclamou da infra-estrutura de banheiro e estacionamento. Realmente o espaço da praia não é tão bom para receber tanta gente de carro, mas nada que chegar mais cedo não resolva.Ou então pagar os 50 reais cobrados pelos estacionamentos.
- Clima muito bom entre os participantes. Muito parecido com aquele das corridas de rua, com muita gente animada e de corpo bonito, com a diferença de que na natação eles ficam de roupa de banho.
- Fiquei observando a organização de um evento desse porte. Realmente é admirável! Se você for buscar no FB, verá muita gente reclamando, mas eu acho sensacional alguém que consiga organizar uma prova tão bacana, que envolve aluguel de 8 balsas, montagem de infra-estrutura na praia, cronometragem de tempo, resgate e apoio no mar e distrubuição de prêmios e medalhas a todos.
- O lugar é lindo! Antes da prova fiquei pensando como era privilegiado de poder competir naquela praia. Um das coisas de que mais gosto na corrida é justamente o fato de ser em espaço aberto, que me permite aproveitar a cidade. Neste caso, ver aquele pedaço de mar reservado para o esporte foi muito legal!

Durante a prova
- Eu estava reticente de ter que nadar acompanhado, mas minhas treinadoras não me deixaram ir sozinho por ser minha primeira travessia. Foi a melhor decisão!  Foi muito difícil nadar e me orientar ao mesmo tempo e graças à Iza pude me concentrar apenas em nadar (e sobreviver aos enjoos rs). Vi muita gente nadando pro lado e até pra trás e foi importante não gastar energia nadando pro lado errado.
-  O começo é realmente tumultuado. Impossível não esbarrar em alguém ou levar uma bordoada. É ruim porque era mais uma coisa para me concentrar: nadar, sobreviver aos enjoos, olhar a direção e tentar não bater em alguém ou não atrapalhar quem quisesse ir rápido. Muito parecido com o inicio de corridas de rua muito cheias, mas com o adicional de que na água você não vê bem a pessoa do lado e não deve parar o movimento. 
-  Passada a fase inicial, comecei a sentir o drama da força do mar. A sensação era de que eu estava nadando numa máquina de lavar. Meus óculos escuros me impediam de enxergar bem e durante uns 20 minutos minha natação foi uma confusão, o que me fez ter muitos enjoos e começar a vomitar.
- Nessa parte da travessia, já podia ouvir pessoas pedindo auxílio dos barcos. Nesse momento, foi importante manter o psicológico focado em nadar. Para quem nada sempre deve ser normal ouvir isso, mas confesso que não foi muito natural para mim ouvir gente pedindo auxílio no meio do mar. Era justamente no momento em que eu estava pior e o mar muito forte então mexeu um pouco com o psicológico. Resolvi continuar nadando. Lembrei do que ultramaratonista Scott Jurek fala no livro dele: tem horas que você apenas tem que continuar fazendo o que está fazendo, sem pensar muito.     
- Quando finalmente resolvi nadar sem óculos, tudo melhorou. Olhei pro lado e a cena foi muito bonita. Várias pessoas nadando em pleno mar, com um visual sensacional. Consegui manter o caminho reto e neste momento as ondas já estavam ajudando a chegar mais perto da praia.
- Uma alegria tremenda quando consegui pegar um jacaré! Economizou um bom tempo de braçada, mas depois veio uma onda maior ainda e meu deu um caldo que virei de ponta cabeça. Nessa hora pensei: ok Jesus, desisto, pode me levar!
- Terminei a prova com momento de muita alegria ao pisar da areia e voltar a caminhar. Havia gente da organização esperando os participantes e oferecendo ajuda médica para quem chegou cambaleando como eu!

Detonado, mas com medalha no peito #zuadomassemparecervulgar
 Apesar de todo o perrengue, minha sensação é de que quero ir na próxima. A natação tem sido um ótimo substituto para minhas corridas e adorei o clima da competição. Só preciso discutir o relacionamento direitinho com o mar na próxima vez.
Deixo aqui meu agradecimento à Amanda e a Izabela que me incentivaram desde o começo a treinar! Com a Iza me ajudando pude completar a prova e, se tenho alguma dica pra dar para quem fará sua primeira travessia, é: vá com alguém experiente! Obrigado treinadoras!

Iza, Amanda e eu com nossas medalhas. Amanda ganhou o 1° Lugar Geral Feminino!

Vitão completando a equipe Nada Caipira!
Medalha do Fuga das Ilhas fazendo companhia para as de corrida


Por fim, deixo vídeo do Luiz Lima que vi antes da prova e me serviu de inspiração:

http://www.youtube.com/watch?v=fx06-zvjCeQ










quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Porque sempre torço pro time pequeno. Ou o que é BIRGing?




Esta semana estava assistindo a um jogo de basebol e, como sempre, o time para o qual eu torcia perdeu. Fiquei com aquilo na cabeça. Por que será que sempre escolho o time mais fraco pra torcer?
Pergunte a uma criança, durante uma partida, para qual time ela está torcendo e a resposta será simples: para o que está ganhando! 
Claro, por que alguém torceria pra algo que vai perder? Viva a resposta das crianças! 
Tenho um amigo que se diz torcedor do Barcelona. Quando ele nos contou isso, demos muita risada da cara dele, porque como alguém de São José pode se dizer torcedor do Barcelona?! Mas no fundo, a resposta dele se assemelha a das crianças: se no esporte só existe a opção ganhar ou perder, por que perder meu tempo torcendo por um time que não tem as mesmas glórias do time catalão?
Fui procurar um pouco sobre a psicologia do torcedor e encontrei o conceito de BIRGing (Basking in reflected glory), que nada mais é do que a associação que um indivíduo faz com o sucesso de outro de tal maneira que aquele sucesso seja sentido como seu também. Esse termo foi estudado com base no comportamento de universitários norte-americanos após as partidas de futebol americano dos seus times. Na segunda-feira após os jogos, se o time ganhava, várias pessoas iam estudar com a camisa do time; se perdia, ninguém vestia peças associadas ao time. O que os alunos procuravam era se vincular ao sucesso do clube, mesmo que não tenham exercido nenhuma influência sobre o resultado.  Isso não é novidade pra ninguém, é o que fazemos sempre quando nosso time de futebol ganha. No fundo, tem a ver com a auto-estima do torcedor. Se o Palmeiras ganha do Corinthians, o Fulano que é palmeirense, mesmo que não saiba fazer 2 embaixadinhas e o amigo corintiano seja um craque, vai se sentir melhor que o rival, porque escolheu 11 caras para jogar e ter a glória por ele, o que não a conseguiria alcançar pelos próprios meios. 
O BARGing não serve só para esportes, mas para todo tipo de associação. Se você usa uma camisa da banda X, quer ser associado ao sucesso daquela banda, mesmo sem saber tocar uma campainha que seja. Se você põe uma foto sua com um famoso no Facebook, que ser vinculado ao sucesso que aquele famoso obtém na profissão. Eu, por exemplo, parei de jogar rugby, mas tenho o adesivo do meu time no carro, para me sentir vitorioso quando o time ganha, mesmo sem ter dado um tackle no jogo. 
Por que será que ficamos tão bravos quando o Brasil perde na Copa do Mundo ou um atleta brasileiro vai mal nas Olimpíadas? Porque nossa auto-estima como brasileiros foi duramente afetada. Acreditamos que os estrangeiros não nos verão (a todos brasileiros por associação) como vencedores, assim como gostaríamos de transparecer pro mundo. 
Não sou psicólogo, mas acredito que quanto menor a auto-estima da pessoa, mais ela depende da glória alheia para sentir-se bem e, conseqüentemente, mais fanático e intolerante ele se torna com a derrota. Por exemplo, nas últimas olimpíadas, reparei que os amigos que mais criticavam as "amareladas" dos atletas brasileiros eram justamente aqueles que menos habilidade tinham nos esportes. Faz sentido: não sabendo fazer nada no âmbito esportivo, mais eles dependiam de que alguém desempenhasse um bom papel para poder sentir uma glória. 
Será que não ocorre o mesmo no futebol? Acredito que sim. Se sua "vida" e alegria de viver dependem da vitória de um time, acho que há algo de errado com a sua vida. A auto-estima não pode ser tão baixa a ponto de depender da vitória alheia para ser feliz. Há pessoas, inclusive, que se tornam violentas durante o jogo, tamanho o medo de se ver diminuído socialmente no dia seguinte caso o time não vença.
Eu já me peguei fazendo este exercício várias vezes. Quando meu time perdia, começava a lembrar das coisas boas da vida: "tenho uma família feliz", "meu filho me ama", "tenho saúde", "tenho emprego", tudo para bombar a auto-estima e me fazer relevar a frustração que os 11 caras me proporcionaram ao não ganhar do time rival.
Ok, já entendi essa historia de BARGing, mas por que então torcemos para times que não ganham? 
Segundo a Dra. Sandy Wolfson, da Universidade de Newcastle, de cuja entrevista tirei boa parte do que escrevi, torcemos para um time mesmo que ele perca porque queremos provar que somos melhores torcedores do que os outros e, conseqüentemente, melhores pessoas, segundo nossa auto-estima. Pela falta de glórias, é muito mais difícil torcer pro São José do que pro Barcelona; logo, sou melhor "torcedor" do que aquele meu amigo, porque permaneço fiel, vou mais ao estádio, assisto mais aos jogos, etc.. É o que ela chama de "superioridade ilusória", que possuímos aos sentirmos como parte de um grupo que consideramos especial. Quem nunca viu um torcedor com a camisa do seu time na rua mesmo depois de uma derrota devastadora? Ele simplesmente quer passar conceitos de fidelidade, coesão de grupo, enfrentamento de adversidades com a cara erguida, etc..Uma das grandes acusações contra os torcedores do São Paulo é justamente esta, de que não vão aos estádios, só quando o time está bom. A intenção dos rivais é provar que são piores torcedores e não deveriam se orgulhar de ser sãopaulinos.
Como esporte não é simplesmente ganhar ou perder, a associação à certo time também está relacionada a outros conceitos que não apenas glórias ou fracassos. No meu caso, como o próprio nome do blog diz, gosto de associar-me à cultura caipira, do homem do interior. Por isso, acabo torcendo pros times que têm mais a ver com esse conceito. Geralmente, esses times não têm o mesmo poderio econômico e esportivo dos clubes das cidades grandes e, assim, dificilmente ganham alguma coisa. Mesmo assim, no meu inconsciente, devo acreditar que vale a pena torcer para eles, pois, quando ganham, é uma verdadeira vitória do David contra o Golias, vitória a qual gostaria de me associar. 
Respondidas as minhas inquietações esportivas sobre meu pé-frio, deixo a entrevista da professora Wolfson para quem quiser saber mais sobre o assunto:







quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Primeira Maratona

Tão zureta que fiz 24 pra câmera, em vez de 42k

“Se você quer correr, então corra uma milha. Se você quer experimentar uma outra vida, corra uma maratona.”
Emil Zatopek


Correr uma maratona sempre foi um objetivo na minha vida, como são aquelas clássicas promessas de plantar árvore, ter filho e escrever um livro. Mas era um objetivo que nunca contou com nenhum planejamento sério, até eu começar a correr com a chegada dos 30 anos. Depois de abandonar o rugby e treinar de verdade para corridas de rua, o sonho da maratona foi começando a aparecer com mais claridade no horizonte e se realizou em 4 de agosto de 2013, precisamente às 10:11 da manhã, quando cruzei os 42k e 195 metros da Maratona de Assunção, após 3h11m54s de corrida.
Desde que comecei a treinar, sempre tive a maratona na cabeça. Em todas as provas e treinos que fazia eu só ficava imaginando como seria legal poder completá-la. Pois bem, depois da Meia Maratona de Assunção e da Meia das Cataratas em maio, me empolguei e quis adiantar os planos para poder correr a maratona de Assunção ainda em 2013. Creio que poderia ter esperado um pouco mais para fortalecimento muscular, mas o simbolismo de conquista que a corrida representava para mim falou mais alto e quis arriscar mesmo assim. Queria que minha primeira fosse aqui em Assunção, cidade em que comecei a correr. Havia também um fator prático muito forte, que era o fato de correr na cidade em que moro, já que sabia que estaria muito cansado depois da corrida. Correr a primeira em Nova Iorque, Berlim, ou Chicago seria muito legal, mas prefiro ficar destruído em casa do que num quarto de hotel!
Os treinos pré-maratona foram os mais divertidos até hoje. A sensação de sair de casa bem cedinho e percorrer boa parte da cidade é muito gostosa. Nos três treinos longos que fiz (21k, 24k e 32k), saí de casa às 7h no domingo e pude reparar em detalhes que nunca havia visto, tanto quando corri em São José dos Campos quanto em Assunção. Agora, eu era um daqueles caras que você, que teve que acordar cedo por algum motivo, vê correndo domingo bem cedinho na cidade e se pergunta: Por que esse idiota não está dormindo?
A ansiedade durante os treinos foi imensa. Já estava ficando mal-humorado porque não chegava logo o dia da corrida. Acho que o que eu queria mesmo era provar logo pra mim que eu podia completar os 42km. Como na semana anterior à maratona você tem que diminuir o ritmo de treino, isso só aumentava mais a vontade de correr.
Quando finalmente chegou o dia, lá está eu na largada para os meus primeiros 42K. Baseado nos tempos que vinha fazendo nos treinos e provas, imaginei fazer a prova perto das 3 horas. Objetivo bastante audacioso para minha primeira maratona, mas não deixava de ser próximo do ritmo que havia feito durante os treinos. O problema é que faltou combinar isso com os quilômetros finais...
Na largada, faltando uns 3 minutos pra começar, puxei papo com um brasileiro do meu lado. O Helbert estava na sua 15a maratona, a 5a em 90 dias. Perguntei como seria o ritmo dele e me falou que estava pretendendo terminar em 3h05. Fiquei meio sem graça de dizer queria segui-lo então, mas foi o que fiz logo no segundo quilômetro de prova. Ele foi muito gente fina e se dispôs a conduzir o ritmo da prova. Em troca, fui apresentando a cidade pra ele.
A primeira dica do Helbert foi: beba água em todos os postos de hidratação, mesmo sem sede! 
Ai estou eu seguindo a dica, logo atrás dele:



Os primeiros 10K foram num ritmo abaixo do que eu gostaria e fiquei me perguntando se deveria apertar o passo. Só ouvi um "não faça isso, vai se arrepender depois" do meu parceiro rs. Ok, segunda dica observada.
Terminamos a primeira metade com 1h32 pelo que me lembro, um ritmo excelente e dentro das expectativas. Nesta parte da prova, bem quando cruzamos o 21°KM, ultrapassamos uns 5 ou 6 corredores. O Helbert falou em tom de brincadeira "estes são corredores de meia maratona, daqui pra frente é que veremos quem é maratonista mesmo". Ali tinha começado a corrida psicologicamente. Eu estava bem, com o pé doendo um pouco na pisada, mas tive a certeza que iria completar aquela prova.
A partir do 25K, a prova voltava pro seu local de origem e teríamos que repetir praticamente todo o trajeto da primeira parte. Essa parte achei bem complicada, porque você consegue ter claramente na cabeça toda a distância que ainda há por percorrer e isso desanima um pouco.
As conversas foram ficando mais raras e me concentrava só em não diminuir o ritmo para conseguir acompanhá-lo e terminar a prova perto das 3 horas.
O plano estava saindo perfeitamente bem, até o 35K. Estava bem alimentado, com energia, disposição e nenhuma parte do corpo doendo muito. Porém, quando tive que fazer uma curva de 180°, mais conhecida como cotovelo, diminuí muito o ritmo e o corpo sentiu o cansaço. Segui o Herbet por mais 2Km e depois tive que diminuir e vi meu parceiro de corrida indo embora.
Do 36K até o final, tenho que confessar: a maratona não teve graça nenhuma pra mim. Cada pisada doía muito o pé e a batata da perna. A vontade de estar em casa no meu sofá era gigantesca.
Quando corria provas anteriores, na hora que a dor e o cansaço apertavam eu me concentrava no fato de que estava me preparando para correr uma maratona. Ficava imaginando como seriam emocionantes os kms finais e isto me confortava. Agora que estava justamente nos kms finais da maratona, nenhum pensamento conseguia me confortar. Tentei de tudo: pensei no meu filho, na família, na melhora de vida que tive correndo, na massagem pós prova...nada adiantava. No livro do Murakami, "Do que eu falo quando falo de corrida", ele diz que prometeu nunca mais correr uma maratona depois que terminou a primeira, de tão cansado que ficou. Eu, quando li, achei exagero, mas nestes kms finais fui além, prometi que nunca mais iria nem correr!
Quando treinava, achava que iria chegar triunfante "à la Rocky Balboa" na linha de chegada da maratona, mas não tive energia nem pra isso! Cheguei simplesmente acabado! O bacana foi que, assim que cruzei a linha final, lá estavam o Helbert e o Wellerson, os dois maratonistas que conheci na corrida, me esperando para parabenizar pela primeira maratona.

Na chegada, a emoção ficou por conta daquelas pessoas que acordaram cedo no domingo pra ver a maratona e, embora que você nunca as tenha visto na vida, torcem por você como se fossem da sua família. Lembro de gente gritando "Falta pouco", "Parabéns!!", "Você conseguiu". Isso foi de encher os olhos.
Terminei em 22° lugar geral,  5° na minha categoria. Foram 3h11m54s de maratona. Meu maior feito esportivo nesta vida!
Não quero desestimular ninguém, mas tenho que ser realista. No meu caso, o final foi bem cansativo. Meu colega de trabalho e amigo, Paulo, que estava gentilmente lá no final da prova, me viu recebendo massagem e disse:
-PC, vim aqui te parabenizar cara, não foi pra reconhecer corpo não!
Apesar de todo esforço e dor no final, na terça-feira, quando a dor passou, eu comecei a experimentar uma sensação de realização incrível. Voltei à adolescência! Eu olhava no espelho e dizia: Consegui! Corri uma maratona!
Fiquei muito feliz de ter cumprido uma meta na vida e muito agradecido por todos aqueles que me ajudaram em algum momento, especialmente meu treinador Henrique, que me tirou do sedentarismo pra maratona em menos de um ano.
Essa maratona foi tão especial, que até apareci na ESPN!

Agora é pensar no próximo objetivo!