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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Música caipira made in Paraguay

O Violeiro, de Almeida Junior
"Moda bem tocada é aquela que desperta em nós uma saudade que a gente nem sabe do quê" 
Abaeté Renato Andrade

A frase do violeiro Abaeté Andrade, citada no livro "Música Caipira", do jornalista José Hamilton Ribeiro, explica muito do meu fascínio pelas músicas paraguaias cantadas em guarani.  Apesar de não entender quase nada da letra, elas sempre me despertaram uma saudade, pois me pareceram, desde o princípio, muito similares às músicas caipiras de raiz que desde pequeno ouvia com meu avô.
Apesar de não ser um especialista em música e só saber tocar campainha, me arrisco a dizer que o sucesso do nosso sertanejo pode ter origens em músicas "made in Paraguay".
Segundo o livro de José Hamilton Ribeiro (meu repórter preferido do Globo Rural!), a nossa música caipira tem origens nas tradições dos cancioneiros ibéricos. Foi por meio dos jesuítas que penetrou em nosso território, como forma de catequizar os indígenas. Assim se passou também no Paraguai. Com temática e instrumentos em comum, nos dois territórios o elemento ibérico fundiu-se com a cultura indígena produzindo músicas que acredito serem muito similares.
Além dessa similaridade mais antiga, muitas músicas que acreditamos serem grandes sucessos caipiras do Brasil tiveram sua origem no Paraguai. São traduções de guarânias e polcas, ritmos típicos daqui, que influenciaram vários artistas brasileiros na segunda fase do desenvolvimento da música caipira, pós-Segunda Guerra. O marco da entrada das guarânias na canção popular brasileira foi o disco de Cascatinha e Inhana, na década de 1950, com os sucessos paraguaios "India" e "Meu primeiro amor". Foi o disco caipira de maior vendagem até então, tornando-se grande influência para a geração seguinte. Eis aqui a dupla cantando música caipira "made in Paraguay":




O verbete da wikipedia sobre guarânias traz um tópico sobre as músicas brasileiras cantadas nesse ritmo. Até o clássico "Fio de Cabelo" encontra-se lá:
Para finalizar a seção de guarânias em português, aqui vai minha seleção preferida, cantada por Bruno e Marrone, e a guarânia "Saudade", de autoria do ex-Embaixador brasileiro em Assunção, Mário Palmério:





A música paraguaia mais famosa no Brasil não é uma guarânia, mas sim uma polca paraguaia (na verdade, a guarânia é uma derivação da polca, que é mais acelerada). Estou falando de "Galopeira", primeiro sucesso de Chitãozinho e Xororó, a dupla que levou o sertanejo ao grande público no Brasil. Apesar do sucesso das grandes duplas sertanejas anteriores a eles, creio que Ch & X foram, nos anos 1990, responsáveis pelo surgimento de um público urbano para a música caipira. Abriram caminho para Leandro e Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano e todos os outros que vieram e estabeleceram o sertanejo como um dos principais gêneros musicais do país.
Eis o original de Ch & X de Galopeira (nome de uma dançarina típica daqui), de autoria do paraguaio Mauricio Cardoso Ocampo:



Vamos a relação do Wikipedia de polcas paraguaias abrasileiradas:

No último show de Zezé di Camargo e Luciano em Assunção houve uma parte dedicada apenas a essas músicas, com participação de um grupo local. Zezé enfatizou a importância que as guarânias e polcas tiveram na sua infância musical. Já ouvi de várias pessoas que a música paraguaia era bem presente no Brasil em décadas anteriores. Uma pena que tenhamos ficado tão bitolados nas músicas em inglês e esquecemos de apreciar a beleza musical dos vizinhos.
Hoje o Paraguai é um grande consumidor de nossas músicas sertanejas, cujo sucesso devemos, em muito, aos próprios paraguaios e sua contribuição cultural.

Para quem quiser saber mais, eis um estudo interessante sobre a influência musical paraguaia no Mato Grosso do Sul:

Por fim, Zezé di Camargo e Luciano cantando em guarani e minha música preferida no Paraguai, "Recuerdos de Ypacarai", que fez muito sucesso no Brasil:





sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Museu Ferroviário de Assunção

Nas ruas de Assunção é possível ver que o bonde ficou na história. Como em algumas cidades do Brasil, o trilho ainda existe, mas escondido sobre camadas de asfalto. Rugosidades urbanas que teimam em mostrar que aqui, assim como em nosso país, perdemos o bonde, enquanto na Europa elas continuam a trazer e levar gente. Quando passo por essas ruas fico imaginando como seria se o bonde ainda passasse ali. Certamente haveria menos carros, maior mobilidade e mais beleza.
Encontrei no site http://www.tramz.com/py/ass.html a história completa, com fotos, do sistema de trens urbanos de Assunção. Com o mapa abaixo, pode-se ver por onde passava o bonde. Se fosse hoje em dia, deixaria o carro em casa e iria trabalhar de bonde, que passava na rua da Embaixada.
mapa retirado do site www.tramz.com/py/m.htmal
Assunção também era ponto de partida da Estrada de Ferro Presidente Carlos Antonio López, que se estendia 370 km entre a capital e Encarnación, na fronteira com a Argentina. Iniciada em 1861, a ferrovia teve seu fim em 1999.
A primeira vez que ouvi falar da ferrovia foi no cinema, em um documentário chamado Tren Paraguay. O filme é repleto daquela melancolia de estações ferroviárias abandonadas que eu adoro. Eis o trailer:


Esta semana descobri que dentro da linda estação de Assunção funciona um Museu Ferroviário. Estações de trem são sempre passeio obrigatório nas cidades para mim e infelizmente aqui demorei quase 6 meses para conhecer, mas gostei do que vi. O museu tem peças que todo apaixonado por trem gostaria de ter e a arquitetura da estação, que foi usada como hospital na Guerra do Paraguai, vale por si só a visita. Na plataforma há um vagão restaurante e um de primeira classe, que realmente impressiona pelo luxo. Há também, em destaque, uma locomotiva chamada Sapukai (grito, em guarani) que foi a primeira a percorrer os trilhos do país, em 1861.
Para quem quiser conhecer mais sobre a ferrovia vale a pena acompanhar este blog de um ciclista mexicano que tem feito o caminho entre Assunção e Encarnación de bicicleta, pela linha do trem: 
http://enbiciporlavia-py.tumblr.com/

A locomotiva Sapukai ao fundo


A estação ferroviária de Assunção

O vagão restaurante
Outra estação legal de visitar em Assunção é a do Jardim Botânico. Foi a primeira parada do trem quando saiu da estação central. De lá saía um passeio de maria fumaça que ia até a cidade turística de Areguá. Hoje o trem está parado, mas ainda inteiro na pequena estação, como se estivesse só a espera de um bravo maquinista para tocar o sino, por lenha na caldeira e seguir no trilhos.

Trem à espera de um maquinista e de novos passageiros

A estação do Jardim Botânico

Outra locomotiva da estação

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Museu do Futebol Sul-americano na Conmebol

        O Museu do Futebol Sul-Americano é passeio obrigatório no Paraguai para quem gosta de futebol. O Museu fica na cidade de Luque, na sede da Conmebol, a pouca distância do Aeroporto Internacional Silvio Petirossi. Inaugurado em 2009, impressiona pela beleza e pelo acervo. O mais divertido, no entanto, é a visita guiada, que começa às 16h. (É bom ligar antes para confirmar horário das visitas- + 595 21 645781). Quando fui, a visita era gratuita.
       Com um conhecimento absurdo sobre futebol, o guia discorre sobre o acervo do museu ao mesmo tempo em que ensina e desafia a memória dos visitantes, premiando as respostas corretas com livros de futebol. Como havia gente da Argentina, Colômbia, Equador, Uruguai, Brasil e, claro, Paraguai na nossa visita, o desafio ficou interessante. 
       Por ser um museu voltado às competições sul-americanas, torcedores de times sem muita familiaridade com a Libertadores podem pular diretamente para a parte de campeonatos de seleções, como a Copa América. Nessa área, estão réplicas de todas as taças vencidas pelas seleções da América do Sul. Arrepia chegar e ver as 5 Copas do Mundo na parte brasileira.
       Apesar de o Museu ter o grande defeito de não ter o símbolo do São José, está lá exposta a última Libertadores feminina, vencida pela Águia do Vale. 


A Libertadores Feminina vencida pelo São José
Painel com diversos clubes da América. Faltou o São José!
Cartaz dos trabalhadores mexicanos na Copa de 1970
  
As boas vindas do Presidente da Conmebol



Aperte aqui e descubra de onde é esse time


O Museu é tão abrangente que tem até o Noroeste...


O guia e seus desafios
Isso ninguém tem!
        

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

As árvores de Assunção

               Assim como minha mudança de São José até Brasília foi marcada pelos ipês amarelos no caminho, da chegada em Assunção certamente lembrarei pelo ipês rosas. Quando se fala em Assunção, poucos sabem o quanto esta cidade é arborizada. Assunção é denominada aqui como a capital mundial dos lapachos, como são chamados os ipês no país. E não é sem razão, pois a cidade é pontilhada por essas árvores. Chegar aqui com a cidade florida de uma árvore tão típica do Brasil certamente aliviou um pouco o sentimento do exílio.
               Acontece que não é só de ipês que a cidade está cheia. São muitas árvores, de diferentes espécies, que têm atraído minha atenção desde que cheguei. A visão aérea da cidade parece um tapate verde, sem exageros. É claro que a quantidade e o cuidado com as árvores variam de bairro em bairro, mas no geral há mais árvores por rua em Assunção do que em muitas cidades que conheci. E o legal é que misturam frutíferas e de sombra. Há ruas só de limoeiros, que acredito serem fornecedores do suco para o terere; a sombra é fundamental para amenizar o forte calor da cidade e é embaixo desses sombras que os paraguios colocam suas cadeiras para tomar terere, conversar e ver o movimento dos finais de semana.
               Adoro árvores desde pequeno e creio que o lugar delas é na cidade. Legal defender as florestas, os bosques e as matas, mas o homem está nas cidades e a arborização urbana para mim é algo fundamental para a qualidade de vida. Muito defensor das florestas nunca plantou uma árvore no seu bairro.
               O que causa maior curiosidade aqui são as árvores literalmente no meio da rua. Já ouvi que um antigo governante proibia qualquer tipo de corte de árvore e por isso as ruas hoje as contornam. O que em um primeiro momento pode causar espanto ao visitante, para mim é sinal mais profundo de desenvolvimento. Mesmo um eucalipto é mais importante que o fluxo de carros!
                Está na hora de plantarmos mais árvores de verdade nas ruas do Brasil. Ultimamente estamos sofrendo a ditadura das palmeiras-lançamento-imobiliário,que não dão frutos, nem flor e nem sombra.
Um eucalipto no meio da rua
Lapacho Rosado

Lapacho Rosado

Lapacho amarilo

Lapacho amarilo

Palo borracho. Muito bom o nome da paineira.
Um eucalipto enorme no campo de rugby do CURDA



Flamboyant


Limoeiro em frente a Embaixada do Brasil



Flamboyant na rua do Consulado do Brasil

A rua do mercado de flores.



Rua de Assunção

Ciclovia arborizada.