sexta-feira, 27 de abril de 2012

A irracionalidade do futebol

Sempre achei as pessoas que não gostavam de futebol muito chatas, até que me tornei uma delas. Futebol, assim como algumas crenças, não se presta muito à racionalização. Há que se ter fé, acompanhar com o coração, porque do contrário você para de seguir. E eu resolvi pensar. Depois que meu filho nasceu parei de me importar com o futebol como fazia antigamente. Lembro de uma vez estar no hospital com ele e assistir na tv da sala de espera o São Paulo ser campeão da Libertadores, um dos meus maiores pesadelos. Naquele momento vi que se a bola do adversário entrasse ou não no gol dos malas dos são-paulinos era muito menos importante do que eu estava vivendo ali. Agradeço sempre por esse dia, quando aprendi que momentos com pessoas queridas valem muito mais que uma partida de futebol.
A recente briga entre torcedores da Gaviões e da Mancha me fez acreditar ainda mais que fiz uma boa escolha. Não consigo entender como uma pessoa de origem humilde, que ganha pra sobreviver, chega ao ponto de matar e morrer por um resultado que só pode ser mudado por jogadores que ganham centenas de milhares de reais e que, na verdade, pouco se importam com o resultado, caso contrário sairiam abatidos de campo, o que ocorre em raras exceções.
Este texto parece aquele papo de babaca "qual é a graça de 22 homens correndo atrás de uma bola". Em certa medida é, mas não tão babaca assim. Temos que pensar o que queremos do futebol. Diversão ou fanatismo? Eu me libertei e hoje tenho uma vida muito mais tranqüila sem me importar se o Palmeiras ganhou ou perdeu.
Outra notícia recente foi a discussão sobre a proibição de cervejas nos estádios durante a Copa, pelo risco da violência. Não poder tomar cerveja no estádio é o atestado de óbito da diversão no futebol. Agora vamos todos pra brigar e xingar, não para torcer e se divertir. Proibir a cerveja no estádio é como proibir a pipoca no cinema. Os estádios vazios deixam muito claro que o futebol deixou de ser uma opção de lazer viável para as famílias, infelizmente.
Agora, não gostar de futebol é um desafio e tanto. O papo sempre descamba pra futebol e se você não emitir uma opinião você vira chato. O problema é que eu ando muito perdido no assunto, não sei nem que são os jogadores mais. Gosto, no entanto, dos papos exóticos, como aqueles do “Loucos por Futebol”. Saber nomes de times, estádios, curiosidades históricas, isso tudo ainda me diverte, mas se o Zezinho deveria jogar de meia-esquerda ou de volante, para isso eu estou pouco me lixando. Esses papos de mesa redonda me dão nos nervos. Há uma paródia do Marcelo Adnet que resume bem as discussões sobre futebol:



 Outro fenômeno atual é o "Aqui é Curtintia" no Facebook. Basta ter um jogo mais importante que no mural do facebook aparece uma infinidade de gente se vangloriando pela vitória do time pelo qual torce. O pior é que essas pessoas não apenas comemoram, mas querem diminuir os que torcem para os outros times o tempo todo. É aquela teoria: olhem só, meu time é melhor, sou melhor que você, meninas gostem de mim porque o time pelo qual torço é melhor..... As pessoas se sentem superiores sem terem feito, ao menos, um golzinho com os próprios pés. Esses dias veio um cara conversar comigo com aquele papo de tiozão de churrasco e passou o tempo todo zuando o Palmeiras, me provocando porque o Palmeiras perdeu pra sei lá quem. Já estava de saco na lua até que falei pra ele: Amigo, eu não joguei, não pude fazer nada pro Palmeiras ganhar, estou aqui no Paraguai, e o fato do seu time ser melhor não faz a menor diferença na minha vida. 
Desagradei, mas não ouvirei mais "e o seu Palmeieras, ein?".
Por fim, sábias palavras do grande Marcos:

 


 * Nota: Todo esse meu papo não vale quando o assunto é o São José.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Rugby e a Diplomacia


 



    Em discurso na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, comparou o rugby à diplomacia. O SG da ONU estava no país para participar do encontro de líderes dos países insulares do Pacífico, reunião marcada "coincidentemente" junto com o início da Copa de Mundo de Rugby.
    Moon afirmou que o rugby e a diplomacia, apesar de não parecer, têm coisas em comum. Segundo ele "no rugby você perde o dente; na diplomacia, a face". A frase, que soa estranho em português, vem da expressão inglesa muito utilizada no mundo diplomático "to lose face", que significa algo como "perder o status ou ser menos respeitado pelos demais ao agir de maneira incorreta".
    O Secretário Geral continuou suas comparações: "No rugby, o scrum confunde qualquer um que não conheça o jogo. Assim também ocorre com os debates da ONU. Às vezes os dois parecem muito similares." Concordo plenamente, apesar de achar o scrum muito mais compreensível do que os debates da ONU.
    Em tom mais sério, afirmou que vê, no rugby, valores e um estilo de vida bem úteis para o mundo da diplomacia: trabalho em equipe, respeito mútuo, solidariedade, garra e determinação.
    Se a guerra é a continuação da diplomacia por outros meios, o rugby é a realização de uma batalha por meios mais diplomáticos. Apesar do contato físico intenso na defesa e conquista do território, o rugby se vale de regras extremamente rígidas no que se refere às agressões. O respeito às regras pré estabelecidas e a rigidez no trato com o árbitro, necessários para evitar que o esporte descambe para a violência, são componentes que faltam na sociedade internacional. Se a ONU tivesse o poder de um juiz de rugby e não de um de futebol, para o qual todos correm reclamando, haveria certamente menos desordem nas relações internacionais.
    Por falar em rugby e diplomacia, o esporte já prestou importante papel nas relações internacionais. No livro "Esporte, Poder e Relações Internacionais", o diplomata Douglas Wanderley de Vasconcellos discorre sobre a conclamação que fez a ONU, em 1976, aos países membros para cortaram relações esportivas com a África do Sul devido ao regime de segregação racial. A seleção de rugby da Nova Zelândia, no entanto, não respeitou o pedido e fez excursão ao país, o que levou os outros países do continente africano a pedirem a exclusão da ilha do Movimento Olímpico Internacional. Por não terem sido atendidos, os países africanos boicotaram os jogos olímpicos de 1976, realizados em Montreal. O final do regime da apartheid e a volta da África do Sul ao cenário esportivo mundial ficaram nacionalmente conhecidos com o filme Invictus.
    Na útlima Copa do Mundo de Rugby, realizada na Nova Zelândia, o imbróglio diplomático foi causado pela possível presença de jogadores militares na seleção de Fiji, país comandado por uma ditadura militar não reconhecida pela Nova Zelândia. 
    A parte mais interessante sobre rugby no livro citado anteriormente, no entanto, são as cartas do Barão do Rio Branco sobre o rugby. Seu filho, Paulo do Rio Branco, jogou no Stade Français e permanece até hoje como o jogador de rugby brasileiro mais bem sucedido no exterior, com 6 títulos de campeão francês. Vamos a frase do Barão sobre o rugby, que consta de carta escrita em 1896: "Esse gênero de esporte deveria ser introduzido no seu Rio Grande, em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, onde o clima permite tais exercícios”. Para quem era craque em disputa de territórios e demarcação de fronteira, nada mais natural do que a admiração pelo rugby. Ainda que de forma indireta, hoje o Barão veria seu nome num dos principais time de rugby do Brasil, o Rio Branco, de São Paulo.
    Sobre seu filho, descreveu o patrono da diplomacia, na carta encontrada pelo autor do livro: "Meu filho Paulo, estudante de Medicina, é o arrière (zagueiro) da equipe francesa, sendo tido como o melhor do país. No mundo dos esportes atléticos, aqui, chamam-no Da Sylva, estando-lhe confiada a última defesa do campo quando os ingleses forçarem – como hão de forçar – as três linhas de avantes, demais e trois-quarts. Ontem o Paulo atirou ao chão todos os ingleses que pôde, até cansar, mas eles são muito superiores aos franceses em disciplina e na arte de passar o balão. Aquele que era atirado ao chão pelo Paulo lançava o balão a outro inglês muito distante, e este, sem encontrar franceses, porque todos perseguiam o primeiro, fazia o ponto."
    Pela carta, pode-se depreender que Paulo jogava de fullback, numa época em que o rugby tinha uma cara diferente da atual.
   Termino o texto com um link para uma reportagem do SPORTV sobre o projeto do Rugby sem Fronteiras, instituição argentina que organizou uma partida entre argentinos e os habitantes das Malvinas.