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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Porque sempre torço pro time pequeno. Ou o que é BIRGing?




Esta semana estava assistindo a um jogo de basebol e, como sempre, o time para o qual eu torcia perdeu. Fiquei com aquilo na cabeça. Por que será que sempre escolho o time mais fraco pra torcer?
Pergunte a uma criança, durante uma partida, para qual time ela está torcendo e a resposta será simples: para o que está ganhando! 
Claro, por que alguém torceria pra algo que vai perder? Viva a resposta das crianças! 
Tenho um amigo que se diz torcedor do Barcelona. Quando ele nos contou isso, demos muita risada da cara dele, porque como alguém de São José pode se dizer torcedor do Barcelona?! Mas no fundo, a resposta dele se assemelha a das crianças: se no esporte só existe a opção ganhar ou perder, por que perder meu tempo torcendo por um time que não tem as mesmas glórias do time catalão?
Fui procurar um pouco sobre a psicologia do torcedor e encontrei o conceito de BIRGing (Basking in reflected glory), que nada mais é do que a associação que um indivíduo faz com o sucesso de outro de tal maneira que aquele sucesso seja sentido como seu também. Esse termo foi estudado com base no comportamento de universitários norte-americanos após as partidas de futebol americano dos seus times. Na segunda-feira após os jogos, se o time ganhava, várias pessoas iam estudar com a camisa do time; se perdia, ninguém vestia peças associadas ao time. O que os alunos procuravam era se vincular ao sucesso do clube, mesmo que não tenham exercido nenhuma influência sobre o resultado.  Isso não é novidade pra ninguém, é o que fazemos sempre quando nosso time de futebol ganha. No fundo, tem a ver com a auto-estima do torcedor. Se o Palmeiras ganha do Corinthians, o Fulano que é palmeirense, mesmo que não saiba fazer 2 embaixadinhas e o amigo corintiano seja um craque, vai se sentir melhor que o rival, porque escolheu 11 caras para jogar e ter a glória por ele, o que não a conseguiria alcançar pelos próprios meios. 
O BARGing não serve só para esportes, mas para todo tipo de associação. Se você usa uma camisa da banda X, quer ser associado ao sucesso daquela banda, mesmo sem saber tocar uma campainha que seja. Se você põe uma foto sua com um famoso no Facebook, que ser vinculado ao sucesso que aquele famoso obtém na profissão. Eu, por exemplo, parei de jogar rugby, mas tenho o adesivo do meu time no carro, para me sentir vitorioso quando o time ganha, mesmo sem ter dado um tackle no jogo. 
Por que será que ficamos tão bravos quando o Brasil perde na Copa do Mundo ou um atleta brasileiro vai mal nas Olimpíadas? Porque nossa auto-estima como brasileiros foi duramente afetada. Acreditamos que os estrangeiros não nos verão (a todos brasileiros por associação) como vencedores, assim como gostaríamos de transparecer pro mundo. 
Não sou psicólogo, mas acredito que quanto menor a auto-estima da pessoa, mais ela depende da glória alheia para sentir-se bem e, conseqüentemente, mais fanático e intolerante ele se torna com a derrota. Por exemplo, nas últimas olimpíadas, reparei que os amigos que mais criticavam as "amareladas" dos atletas brasileiros eram justamente aqueles que menos habilidade tinham nos esportes. Faz sentido: não sabendo fazer nada no âmbito esportivo, mais eles dependiam de que alguém desempenhasse um bom papel para poder sentir uma glória. 
Será que não ocorre o mesmo no futebol? Acredito que sim. Se sua "vida" e alegria de viver dependem da vitória de um time, acho que há algo de errado com a sua vida. A auto-estima não pode ser tão baixa a ponto de depender da vitória alheia para ser feliz. Há pessoas, inclusive, que se tornam violentas durante o jogo, tamanho o medo de se ver diminuído socialmente no dia seguinte caso o time não vença.
Eu já me peguei fazendo este exercício várias vezes. Quando meu time perdia, começava a lembrar das coisas boas da vida: "tenho uma família feliz", "meu filho me ama", "tenho saúde", "tenho emprego", tudo para bombar a auto-estima e me fazer relevar a frustração que os 11 caras me proporcionaram ao não ganhar do time rival.
Ok, já entendi essa historia de BARGing, mas por que então torcemos para times que não ganham? 
Segundo a Dra. Sandy Wolfson, da Universidade de Newcastle, de cuja entrevista tirei boa parte do que escrevi, torcemos para um time mesmo que ele perca porque queremos provar que somos melhores torcedores do que os outros e, conseqüentemente, melhores pessoas, segundo nossa auto-estima. Pela falta de glórias, é muito mais difícil torcer pro São José do que pro Barcelona; logo, sou melhor "torcedor" do que aquele meu amigo, porque permaneço fiel, vou mais ao estádio, assisto mais aos jogos, etc.. É o que ela chama de "superioridade ilusória", que possuímos aos sentirmos como parte de um grupo que consideramos especial. Quem nunca viu um torcedor com a camisa do seu time na rua mesmo depois de uma derrota devastadora? Ele simplesmente quer passar conceitos de fidelidade, coesão de grupo, enfrentamento de adversidades com a cara erguida, etc..Uma das grandes acusações contra os torcedores do São Paulo é justamente esta, de que não vão aos estádios, só quando o time está bom. A intenção dos rivais é provar que são piores torcedores e não deveriam se orgulhar de ser sãopaulinos.
Como esporte não é simplesmente ganhar ou perder, a associação à certo time também está relacionada a outros conceitos que não apenas glórias ou fracassos. No meu caso, como o próprio nome do blog diz, gosto de associar-me à cultura caipira, do homem do interior. Por isso, acabo torcendo pros times que têm mais a ver com esse conceito. Geralmente, esses times não têm o mesmo poderio econômico e esportivo dos clubes das cidades grandes e, assim, dificilmente ganham alguma coisa. Mesmo assim, no meu inconsciente, devo acreditar que vale a pena torcer para eles, pois, quando ganham, é uma verdadeira vitória do David contra o Golias, vitória a qual gostaria de me associar. 
Respondidas as minhas inquietações esportivas sobre meu pé-frio, deixo a entrevista da professora Wolfson para quem quiser saber mais sobre o assunto:







terça-feira, 31 de julho de 2012

Orgulho joseense

    Desde 26 de julho último, este humilde blog destinado, até então,  à "análise de coisas sem a menor importância no mundo", recebeu uma avalanche de acessos. Até o presente momento foram exatamente 4.200 leitores do texto sobre o que fazer em São José dos Campos. Além da grata surpresa,  isso me trouxe alívio e alegria.
    Alívio de saber que não sou o único louco pela cidade. A paixão por São José me persegue desde sempre. Quantas vezes tive que segurar aquela frase sobre a cidade para não ter que ouvir de novo: lá vem o chato falar bem de São José. Dentro de casa então, falar de São José  para minha bauruense é ouvir um "ai, chega de São José né" automático. Faz sentido, pois já são quase quatro anos de doses diárias sobre as proezas da Capital do Vale. Eu não me agüento.
    Que alegria ler nos comentários que muita gente viveu momentos tão felizes na cidade e que ela é tão querida por todos. Foi bom saber que o texto propiciou uma volta à infância para muitos. Dei muita risada com os comentários e agradeço cada um que ajudou a divulgar nossa cidade pela rede.
    Faltou muito item na lista, mas isso é prova de que temos uma cidade múltipla, que permite diferentes experiências de vida, ainda que marque a cada um de nós com uma experiência em comum. 
    Para encerrar o ciclo joseense do blog, versos do nosso mais ilustre conterrâneo, Cassiano Ricardo, nome de biblioteca, escola, avenida, etc...:

A flauta que me roubaram


Era em S. José dos Campos.
E quando caía a ponte
eu passava o Paraíba
numa vagarosa balsa
como se dançasse valsa.
O horizonte estava perto.
A manhã não era falsa
como a da cidade grande.
Tudo era um caminho aberto.
Era em S. José dos Campos
no tempo em que não havia
comunismo nem fascismo
pra nos tirarem o sono.
Só havia pirilampos
imitando o céu nos campos.
Tudo parecia certo.
 
O horizonte estava perto.
Havia erros nos votos
mas a soma estava certa.
Deus escrevia direito
por pequenas ruas tortas.
A mesa era sempre lauta.
Misto de sabiá e humano
o vizinho acordava
tranqüilo, tocando flauta.
Era em S. José dos Campos.
O horizonte estava perto.
Tudo parecia certo
admiravelmente certo.




quinta-feira, 26 de julho de 2012

O que fazer em São José dos Campos?


Muita gente reclama que em São José não há nada para se fazer. Eis o que diz o Desciclopédia sobre a cidade: "O único orgulho dos moradores da cidade é dizer que ela fica a uma hora de qualquer parte do mundo. A uma hora de São Paulo, a uma hora do litoral, a uma hora de Campos do Jordão, a uma hora do Rio de Janeiro, a uma hora de Aparecida, a uma hora de Nova Iorque e Paris. Ou seja, não tem porra nenhuma pra fazer aqui, pois tem-se tudo em uma hora".

          Para responder ao Desciclopédia e comemorar o aniversário da cidade, ai vão dicas do que fazer na capital da aviação:

          1- Passear de carro no centro e contar para os visitantes que ali funcionava o único McDonald's a falir no mundo.
           2-  Comer pipoca com queijo do tio uruguaio no Parque Santos Dumont.
           3-  Comer bolinho caipira nas festa juninas.
           4-  Correr no Vicentina Aranha no final da tarde admirando a arquitetura.
           5-  Andar de bicicleta nas ruas do Urbanova.
           6-  Tomar caldo de cana  na Anchieta.
           7-  Comer o churrasquinho de gato em frente ao Extra do CTA.
           7b-Contar a experiência depois, porque não conheço ninguém que tenha comido, apesar do ótimo cheiro.
           8-  Beber o famoso chopp do Coronel.
           9-  Assistir um jogo do São José no Martins Pereira e reclamar do time.
          10- Comer o famoso pintado no Vila Velha.
          11- Comer o quibe cru do Al Badah.
          12- Descer de skate a ladeira do Urbanova apreciando o visual da Mantiqueira.
          13- Assitir o pôr do sol na Anchieta e fazer valer o dinheiro do contribuinte gasto na construção do mirante.
          14- Comer pastel com guaranazinho do sul de Minas no Mercado Municipal.
          15- Tomar caldinho no São Dimas no frio.
          16- Ir para Caraguá no final de semana e envolver-se numa briga.
          17- Ir no Anexo, ver as pessoas de sempre e disputar uma cerveja.
          18- Sair da balada e entupir-se de esfiha no Habib's.
          19- Sentir frio na barriga na descida do Habib's. Se for depois da balada, levantar as mãos como numa montanha russa.
          20- Ficar com a mesma pessoa que seu amigo(a)/primo(a)/irmão(ã) já ficou.
          21- Jogar rugby no Maconhão.
          22- Assisitir ao time de basquete no ginásio da Associação.
          23- Fazer aula de ginástica olímpica com o Luiz Assunção.
          24- Procurar bicho-preguiça na Praça do Sapo.
          25- Chamar de caipira quem é de Caçapaca, Jacareí e região.
          26- Ir na balada das cidades vizinhas. (Vide n° 20)
          27- Conhecer o Henrique famoso.
          28- Decorar as musiquinhas da TV Vanguarda.
          29- Tomar uns goró no Disque Bebidas.
          30- Ir na saída de aula das outras escolas durante a adolescência.
          31- Conhecer o CTA e a arquitetura do Niemeyer de seus prédios.
          32- Passear pelo Parque da Cidade e admirar a casa de Olivo Gomes, com seus jardins de Burle Marx.
          33- Assitir o show do Peleco no mínimo 18 vezes.
          34- Perceber que mais um prédio surgiu no Aquárius.
          35- Visitar o jardim japonês na subida do Aquarius e não entender o por que de ter sido construído ali.
          36- Visitar o Memorial Aeroespacial Brasileiro.
          37- Observar os aviões da Embraer cruzando o céu da cidade.  
          38- Ir a uma festa no Luso e sentir que andou mil quilômetros.
          39- Sentir-se sozinho porque todo mundo viajou, afinal, tudo está a uma hora de distância.
          40- Andar de Pássaro Marrom.
          41- Ver a UNIP na Dutra, achar que chegou em casa e ligar pra alguém buscar na rodoviária.
.         42- Acreditar que as maiores invenções brasileiras, desde o avião até os satélites, foram feitos pelos alunos do ITA.
          43- Fazer ballet na Ana Araújo ou na Cristina Cará.
          44- Tirar foto com os aviões do Parque Santos Dumont.
          45- Comemorar o título do seu time na Av. 9 de julho.
          46-  Comer uma coxinha da Marinella.
          47- Conhecer o Estrela Night Club após uma bebedeira.
          48- Passear em São Francisco Xavier, principalmente no Festival Literário.
          49- Visitar os parentes em outra cidade, afinal quase ninguém tem pai/mãe joseense.
          50- Visitar a Biblioteca Cassiano Ricardo.
          51- Escolher algum shopping pra dar um rolê ou fazer compras no calçadão.
          52- Passear pela Praça Afonso Pena e saudar o Lunático Dançarino.
          53- Ler o Vale Paraibano.
          54- Ver notícias  da Fabiola Molina ou do André Azevedo no caderno de esporte.
          55- Tentar explicar pro visitante o que é o Banhado.
          56- Comer o sanduíche do Kadu na 9 de julho depois da balada e entupir de molhos e maioneses.
          57-  Explicar que quem nasce em São José não é saojoseense.
          58- Ficar parado 5 minutos no Anel Viário e já pensar: Nossa, o trânsito está ficando igual ao de São Paulo.
          59- (Antes tarde do que nunca), atualizando para colocar o Açaí do sábado à tarde! É o item mais falado nos comentários! Joseense gosta e muito de açaí!
          60- Comentar este post aqui com mais dicas!
       
          Agradeço a colaboração dos amigos joseenses, que ajudaram a enriquecer esta lista!

Atualização:
         Caros amigos joseenses,
         Esse texto acabou rendendo boas surpresas! Ele foi incorporado a um livro sobre São José, que foi enterrado pela Prefeitura numa cápsula do tempo que será aberta só em 2067, quando a cidade completar 300 anos.
         A outra surpresa foi que o texto virou música pelas mãos do Adilson Ivan Junior da Costa, da banda Johnny Créu! Muito bom! Valeu Adilson!
          Segue o link para o vídeo dele:

         

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Tardes de poesia em Itajubá

Às vezes um presente te faz buscar na memória todo o seu passado com relação a um tema. Foi o que ocorreu quando fui buscar um objeto misterioso que o correio paraguaio disse estar a minha espera no depósito central. Tive a surpresa de receber um livro de poesias de autoria de um grande amigo, Pedro Ernesto Cursino, que escondia um poeta dentro da sua mais conhecida faceta de grande jogador de rugby e parceiro de infância! E o presente chegou justo numa fase de redescoberta com o universo poético.
Relatos e Devaneios
Minha relação com a poesia, devo confessar, nunca tinha sido muito boa. Não sei por quê, mas sempre tive um bloqueio desde criança. Talvez tenha sido meu exagerado apego à realidade, que até hoje me impede de ir ao teatro ou ver novela, por não gostar de interpretação. Vai saber...
A relação, que já não era boa, foi por água abaixo quando me deparei com esse poema do Drummond na minha vida:

Legado
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
                                                            uma voz matinal palpitando na bruma
                                                                          e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
                                                                   De tudo quanto foi meu passo caprichoso
                                                            na vida, restará, pois o resto se esfuma,
                                                         uma pedra que havia no meio do caminho.

O problema não foi o poema em si, mas o fato dele ter aparecido na segunda fase do concurso do Itamaraty. Pela primeira vez na história os candidatos teriam que escrever 3 infinitas páginas sobre um poema. Eu simplesmente entrei em desespero e escrevi o que pude, sobre o tema do legado, fingindo não ter visto o poema. Há relatos de gritos no banheiro de pessoas em igual situação, ainda durante a aplicação da prova:
 -  C****, eu sou engenheiro, não entendo de poema! Por que justo no meu ano vai cair um raio de um poema!
 Deu no que deu. Nota de 59,75 quando eram necessários 60/100. Fui salvo apenas duas semanas depois, graças a uma marcação errada no meu texto sobre Graciliano Ramos. Nada como uma prosa para ajudar.
 O trauma poético só começou a passar nos últimos meses, quando comecei a ler a obra de Cassiano Ricardo. Apesar de ter estudado na escola com seu nome e de Cassiano Ricardo dar nome a importantes instituições e ruas da minha cidade, como a charmosa biblioteca municipal de São José dos Campos, nunca o tinha lido até muito recentemente. E comecei a ler mais pelo amor a São José do que pelo amor à poesia, mas acabei gostando:

Biblioteca Cassiano Ricardo

"Era em S. José dos Campos.
E quando caía a ponte
eu passava o Paraíba
numa vagarosa balsa
como se dançasse valsa (...)"

(...)Era em S. José dos Campos.
O horizonte estava perto.
Tudo parecia certo
admiravelmente certo."

Trecho de "A Flauta que me roubaram"




Hoje, vindo pro trabalho, lembrei-me dos encontros de família da minha vó Laura, em Itajubá. Incentivados pelo meu pai, os parentes portugueses se revezam em declamar poesias sobre a terra que deixaram, fazendo jus à veia poética que foi herança do meu bisavô, professor de português em Pouso Alegre. Com paixão pela língua portuguesa, entoavam versos de amor à Portugal, com frases de Camões e Fernando Pessoa. Lembro de minha vó, que ouvia tudo atentamente, sempre dizer ao meu pai, com lágrimas nos olhos:
- Ó Walter, esses versos me dão uma saudade de Portugal.
Foi numa dessa ocasiões que decorei pela primeira vez, ainda criança, uma poesia:
 "Ó mar salgado, quanto do teu sal. São lágrimas de Portugal".
Acho que, além de aprender um verso, nessa ocasião pude entender um pouco desse meu gosto pela melancolia, que pelo jeito herdei do sangue português:
Aos meus olhos de menino, era mais divertido ver a desinibição daquelas tias-avó em frente ao público do que propriamente a poesia declamada. Hoje, queria estar novamente nessas tardes de poesia em Itajubá, para que meu filho pudesse ver como era linda a língua portuguesa declamada pelas poetisas da família.

Pra finalizar, um poema de Floberla Espanca, narrado pela atriz portuguesa Eunice Muñoz, que dá um gostinho de ouvir poesia portuguesa lida com sotaque português. No fim, a poesia musicada por Fagner:



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Museu do Futebol Sul-americano na Conmebol

        O Museu do Futebol Sul-Americano é passeio obrigatório no Paraguai para quem gosta de futebol. O Museu fica na cidade de Luque, na sede da Conmebol, a pouca distância do Aeroporto Internacional Silvio Petirossi. Inaugurado em 2009, impressiona pela beleza e pelo acervo. O mais divertido, no entanto, é a visita guiada, que começa às 16h. (É bom ligar antes para confirmar horário das visitas- + 595 21 645781). Quando fui, a visita era gratuita.
       Com um conhecimento absurdo sobre futebol, o guia discorre sobre o acervo do museu ao mesmo tempo em que ensina e desafia a memória dos visitantes, premiando as respostas corretas com livros de futebol. Como havia gente da Argentina, Colômbia, Equador, Uruguai, Brasil e, claro, Paraguai na nossa visita, o desafio ficou interessante. 
       Por ser um museu voltado às competições sul-americanas, torcedores de times sem muita familiaridade com a Libertadores podem pular diretamente para a parte de campeonatos de seleções, como a Copa América. Nessa área, estão réplicas de todas as taças vencidas pelas seleções da América do Sul. Arrepia chegar e ver as 5 Copas do Mundo na parte brasileira.
       Apesar de o Museu ter o grande defeito de não ter o símbolo do São José, está lá exposta a última Libertadores feminina, vencida pela Águia do Vale. 


A Libertadores Feminina vencida pelo São José
Painel com diversos clubes da América. Faltou o São José!
Cartaz dos trabalhadores mexicanos na Copa de 1970
  
As boas vindas do Presidente da Conmebol



Aperte aqui e descubra de onde é esse time


O Museu é tão abrangente que tem até o Noroeste...


O guia e seus desafios
Isso ninguém tem!
        

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

São José, um amor em azul e amarelo

      
       Antes de começar a falar de futebol aqui tenho que admitir que não há nenhuma racionalidade em perder seu humor porque os 11 caras da sua cidade não conseguiram fazer a bola passar mais vezes do que o necessário pelo gol do time adversário. Desde que meu filho nasceu comecei a me importar menos com futebol e mais com o tempo que passo com ele. Tem dado certo em alguma medida. Já não perco meu tempo vendo jogos de outros times considerados importantes. A paixão pelo rugby ofuscou ainda mais o entusiasmo pelo futebol. Este autocontrole zen vai por água abaixo, no entanto, quando as cores azul e amarelo entram em campo. Assim como o Pateta fica transtornado quando entra no carro e se aventura no trânsito, fica difícil me controlar quando passo pelas portas do Martins Pereira para torcer pro São José. Desde bebê fui levado para o estádio pelo meu pai, de quem herdei a paixão pelo São José. Esse tipo de amor não se apaga de um dia pro outro.
        Quando me perguntam pra que time eu torço e digo São José as pessoas têm uma grande dificuldade em me levar a sério. Parece que eu falei que torço pro Marte F.C. Dependendo de quem pergunta, pra encurtar a conversa, acabo dizendo que sou palmeirense. Já fui, mas não ligo mais, apesar de não acreditarem. 
      Meu colega Rezek, apaixonado pelo Uberlândia, um dia perguntou pra minha mulher para quem eu torceria num jogo entre Palmeiras e São José. Ela respondeu erroneamente Palmeiras e o Rezek cochichou no meu ouvido: se fosse minha mulher eu separava.  
       Torcer para um time é fazer parte de um grupo, de uma identidade. Por que torcemos? Se seu time ganha, você se sente ganhador e mais feliz, a sociedade teoricamente o respeita mais, aumenta sua autoestima e você acredita que fará mais sucesso com o sexo oposto (ou não), objetivo único de todas as atividades humanas. Se isso é verdade, então por que torcer para um time cuja única conquista relevante é o vice-campeonato paulista de 1989? Acho que diante das adversidades de ser um time do interior, cada vitória sobre o rival de outra cidade é uma injeção de autoestima. É como se falássemos: "nós, aqui de São José, somos melhores! Temos os melhores genes! Ganhamos até de times maiores". Mas isso é só uma teoria de racionalizar um sentimento difícil de explicar. Vou ao estádio porque é legal, simples assim. Adoro ir na companhia do meu pai, vestir minha camisa velha da sorte (que nem minha mãe nem minha mulher me deixam usar em casa), poder parar o carro na porta, comprar o ingresso na hora, sentir o cheiro dos churrasquinhos de gato, comer pipoca com queijo, xingar o juiz, gritar gol, pedir substituição e ser atendido (em estádio pequeno dá), encontrar meu amigo Biri, conversar com desconhecidos.
         Estes dias estava jogando bola com meu filho na quadra em frente de casa. Observando as crianças vi camisas do Mancheter, Chelsea, Barcelona, Real Madrid e Milan. Havia uma única camisa de time brasileiro, a do Corinthians. Quando separamos os times, um deles escolheu ser o Corinthias e o outro, para minha surpresa, o Barcelona. Como pode, num país pentacampeão do mundo, as crianças escolherem torcer para times de outro continente? Se você liga na ESPN ou SPORTV provavelmente conseguirá saber o resultado e ver os gols de Hull x Bolton, Benfica x Marítimo ou Lecce x Torino. Mas experimente descobrir quanto foi Taubaté x XV de Jaú. Missão quase impossível nos dias atuais. A ESPN agora deu de transmitir o campeonato russo! Assim, vivemos hoje em uma sociedade em que você tem o incrível privilégio de acompanhar ao vivo Lokomotiv x Rubin Kazan mas não consegue saber como foi o gol do time de sua cidade.
         Depois da experiência de ver os meninos todos torcendo "pras Europa", achei que estava mais do que na hora de levar o meu para ver o jogo do São José. E lá fomos nós. Nesses momentos é que você vê aquele comercial de margarina sobre paternidade tornar-se realidade diante dos seus olhos. Levar meu filho ao estádio foi voltar ao passado e lembrar das inúmeras vezes em que fui carregado pelo meu pai. Deu pra ver os olhinhos dele brilhando na primeira vez que viu um estádio cheio. Era São José x Guarani, para um público de mais de 5 mil pessoas. Gotas de água salgada da mais viril masculinidade escorreram do meu rosto ao vê-lo gritando São José. Era a paixão por um time sendo transmitida à terceira geração.
          Assim como sempre acontece com seu padrinho, meu filho logo foi atraído pela baixa-grastronomia no estádio. Pipoca, picolé, amendoim, cachorro quente e coca-cola gelada! Aliás, o Barcelona pode até ter o Messi, mas não tem um picolé de limão tão bacana como esse aí do lado.
     Devo confessar que o jogo não foi tão divertido pra ele. Acostumado com o Playstation, em que os jogos acabam no mínimo 10x8, deu pra ver que ele achou o 0x0 do primeiro tempo entediante. No intervalo, me disse: Papai, queria que o Pelé jogasse no São José, porque daí eu poderia ver uns gols.
       No primeiro tempo o time foi realmente mal, o que gerou a segunda frase do dia:
           - Papai, o moço ali atrás falou "Vai tomar no C*"!
       -Eu ouvi filho, mas se você repetir isso em casa eu to ferrado.         
        No segundo tempo o time rendeu mais e fez dois gols, para nossa alegria! A Águia do Vale ganhou não só os três pontos, mas também um novo torcedor! Quando chegamos em casa minha mãe disse: "Xii, mais um pra ir feliz ao estádio no domingo ver o São José e voltar cabisbaixo depois do jogo"!
          Já são 12 anos na segunda divisão do Paulista, espero que este ano possamos gritar é campeão.
         Se você ainda não é pai e quer saber qual é a emoção de levar seu filho ao estádio pela primeira vez, este vídeo é um belo exemplo:




segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Rugby: um esporte de caipira?


A frase “os caipira é foda” já se tornou um clássico do São José Rugby. No dia em que o time se tornou heptacampeão brasileiro de rugby eu estava coincidentemente lendo um livro chamado Soccernomics, dos ingleses Simon Kuper e Stefab Szymanski. O livro é muito ruim, infelizmente, pois sou fã da série Freakonomics, mas tem uma teoria interessante: os times europeus de futebol do interior são mais bem sucedidos que os das capitais.
Com dados do Barcelona, Manchester United, Bayern de Munique, Milan e Lyon, os autores mostram como os torneios europeus foram dominados por times provincianos. O porquê disso? Segundo os autores, as cidades do interior têm muito mais a provar do que as capitais. As capitais já teriam motivos suficientes para se orgulharem e o título no futebol não é a grande preocupação da população. Os autores chamam a atenção para o fato de que as torcidas do interior cantam músicas sobre suas cidades, o que dificilmente você verá em algum time de Londres ou Paris. Mas o que isso tem a ver com o rugby? A frase “os caipira é foda” pode ser um bom indicativo de que no rugby a teoria dos times do interior também se aplica.
Fui pesquisar se no rugby os times do interior se saíram bem em 2011 e pude chegar a estes dados sobre os campeões:

- Heineken Cup: Leinster (Dublin, 525 mil habitantes)

- Super 15: Queenslan Reds (Brisbane, 2 milhões de habitantes)

- Liga Celta: Munster (Limerick, 90 mil habitantes)

- Campeonato francês: Toulouse, (Toulouse, 439 mil habitantes)

- Campeonato inglês: Saracens, (Watford, 120 mil habitantes)

- Campeonato italiano: Benetton Treviso, (Treviso, 82 mil habitantes)

- Campeonato argentino: Duendes (Rosário, 1 milhão de habitantes)

- Campeonato sul-africano: Pampas XV (combinado argentino)

- Campeonato neozelandês: Canterbury (Time da região de Canterbury, 560 mil habitantes)

- Campeonato brasileiro: São José Rugby (São José dos Campos, 636 mil habitantes)

A única exceção à extensa lista é o Leinster, apesar de eu achar que Dublin, se comparada às outras capitais européias, não é bem o que chamamos de metrópole e os irlandeses tem muito a provar para seus vizinhos ingleses. De qualquer forma, o principal ganhador da Heineken Cup é Toulouse, time mais bem sucedido da Europa com 4 títulos.
Mas será que o fato de ser do interior realmente exerce alguma influência no jogo? Os autores dos Soccernomics dizem que sim. Apesar de eles não considerarem o fato de que, via de regra, há sempre mais times do interior do que da capital em um campeonato, o que aumenta a probabilidade de o vencedor vir do interior, há algo que se possa aproveitar desta teoria.
Diferentemente do futebol americano*, cuja ênfase é colocada na conquista de novos espaços – conforme o histórico destino dos Estados Unidos de avanço sobre novas terras- tenho pra mim que o rugby é praticamente um jogo de defesa de território. É claro que se há alguém defendendo é porque há alguém atacando, mas o meu sentimento é de que a defesa é mais importante do que o ataque no rugby. Pergunte a alguém qual é o movimento fundamental do rugby e tenho certeza que muitos dirão o “tackle” e não o “passe” ou o “drible”. 
Em se tratando de defender suas terras, as pequenas cidades da Europa têm um Know-how invejável. E o que dizer então da luta dos povos aborígenes da Oceania ou mesmo da Irlanda, Escócia e África do Sul contra o domínio de suas terras pelos ingleses? Quando falamos em Copa do Mundo de Rugby, são 6 títulos para as colônias e 1 para a metrópole. Em um de seus Hakas, o "Kapa o Pango", a seleção da Nova Zelândia grita aos seus adversários: “Essa é minha terra, que vibra” / “Nosso domínio, nossa supremacia triunfará”:

Na França, a rivalidade entre interior e capital ganhou destaque em 2008 quando o Stade Français, de Paris, lançou a provocativa camisa abaixo, estampando a Rainha Branca de Castela, responsável por anexar a região occitana ao domínio parisiense. Vale lembrar que grandes times franceses do interior, como o Toulouse, vêm dessa região. Imagino como deve ter sido jogar de visitante com essa camisa...
Não podemos ser simplistas de achar que só porque é do interior o time tem mais chance de vencer. No entanto, o orgulho interiorano e a vontade de triunfar sobre os "primos ricos" podem, sim, exercer alguma influência sobre os treinamentos e a preparação. Creio que defender a cidade pese muito mais na atitude do atleta do que defender um clube e em nenhum outro esporte o sentindo de orgulho e coletividade está tão presente quanto no rugby.

AQUI NÃO!!!

*o atual campeão da NFL é o Green Bay Packers (Green Bay, 100 mil habitantes)