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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Museu Ferroviário de Assunção

Nas ruas de Assunção é possível ver que o bonde ficou na história. Como em algumas cidades do Brasil, o trilho ainda existe, mas escondido sobre camadas de asfalto. Rugosidades urbanas que teimam em mostrar que aqui, assim como em nosso país, perdemos o bonde, enquanto na Europa elas continuam a trazer e levar gente. Quando passo por essas ruas fico imaginando como seria se o bonde ainda passasse ali. Certamente haveria menos carros, maior mobilidade e mais beleza.
Encontrei no site http://www.tramz.com/py/ass.html a história completa, com fotos, do sistema de trens urbanos de Assunção. Com o mapa abaixo, pode-se ver por onde passava o bonde. Se fosse hoje em dia, deixaria o carro em casa e iria trabalhar de bonde, que passava na rua da Embaixada.
mapa retirado do site www.tramz.com/py/m.htmal
Assunção também era ponto de partida da Estrada de Ferro Presidente Carlos Antonio López, que se estendia 370 km entre a capital e Encarnación, na fronteira com a Argentina. Iniciada em 1861, a ferrovia teve seu fim em 1999.
A primeira vez que ouvi falar da ferrovia foi no cinema, em um documentário chamado Tren Paraguay. O filme é repleto daquela melancolia de estações ferroviárias abandonadas que eu adoro. Eis o trailer:


Esta semana descobri que dentro da linda estação de Assunção funciona um Museu Ferroviário. Estações de trem são sempre passeio obrigatório nas cidades para mim e infelizmente aqui demorei quase 6 meses para conhecer, mas gostei do que vi. O museu tem peças que todo apaixonado por trem gostaria de ter e a arquitetura da estação, que foi usada como hospital na Guerra do Paraguai, vale por si só a visita. Na plataforma há um vagão restaurante e um de primeira classe, que realmente impressiona pelo luxo. Há também, em destaque, uma locomotiva chamada Sapukai (grito, em guarani) que foi a primeira a percorrer os trilhos do país, em 1861.
Para quem quiser conhecer mais sobre a ferrovia vale a pena acompanhar este blog de um ciclista mexicano que tem feito o caminho entre Assunção e Encarnación de bicicleta, pela linha do trem: 
http://enbiciporlavia-py.tumblr.com/

A locomotiva Sapukai ao fundo


A estação ferroviária de Assunção

O vagão restaurante
Outra estação legal de visitar em Assunção é a do Jardim Botânico. Foi a primeira parada do trem quando saiu da estação central. De lá saía um passeio de maria fumaça que ia até a cidade turística de Areguá. Hoje o trem está parado, mas ainda inteiro na pequena estação, como se estivesse só a espera de um bravo maquinista para tocar o sino, por lenha na caldeira e seguir no trilhos.

Trem à espera de um maquinista e de novos passageiros

A estação do Jardim Botânico

Outra locomotiva da estação

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Museu do Futebol Sul-americano na Conmebol

        O Museu do Futebol Sul-Americano é passeio obrigatório no Paraguai para quem gosta de futebol. O Museu fica na cidade de Luque, na sede da Conmebol, a pouca distância do Aeroporto Internacional Silvio Petirossi. Inaugurado em 2009, impressiona pela beleza e pelo acervo. O mais divertido, no entanto, é a visita guiada, que começa às 16h. (É bom ligar antes para confirmar horário das visitas- + 595 21 645781). Quando fui, a visita era gratuita.
       Com um conhecimento absurdo sobre futebol, o guia discorre sobre o acervo do museu ao mesmo tempo em que ensina e desafia a memória dos visitantes, premiando as respostas corretas com livros de futebol. Como havia gente da Argentina, Colômbia, Equador, Uruguai, Brasil e, claro, Paraguai na nossa visita, o desafio ficou interessante. 
       Por ser um museu voltado às competições sul-americanas, torcedores de times sem muita familiaridade com a Libertadores podem pular diretamente para a parte de campeonatos de seleções, como a Copa América. Nessa área, estão réplicas de todas as taças vencidas pelas seleções da América do Sul. Arrepia chegar e ver as 5 Copas do Mundo na parte brasileira.
       Apesar de o Museu ter o grande defeito de não ter o símbolo do São José, está lá exposta a última Libertadores feminina, vencida pela Águia do Vale. 


A Libertadores Feminina vencida pelo São José
Painel com diversos clubes da América. Faltou o São José!
Cartaz dos trabalhadores mexicanos na Copa de 1970
  
As boas vindas do Presidente da Conmebol



Aperte aqui e descubra de onde é esse time


O Museu é tão abrangente que tem até o Noroeste...


O guia e seus desafios
Isso ninguém tem!
        

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Nashville e o Museu da Música Country



                 A grande atração turística de Nashville é o Museu da Música Country. Alías, a cidade é considerada a capital da música nos EUA. Há também uma sede da Embraer por lá. Eis a explicação no site da empresa: Fifty percent of the nation's population is located within 700 miles of Nashville. Three major interstate highways connect Nashville to the rest of the country, providing excellent surface transportation. Nashville has nearly 400 daily flights to 86 markets. Embraer Aircraft Maintenance Services (EAMS) selected Nashville as the location for its Regional Airline Support Facility; its central USA location was a major factor. This location put EAMS within easy reach of Regional Airline operators in the Eastern and Central United States.
Acreditei nesse argumento a princípio, mas depois de conhecer a vida noturna da cidade, bem diferente das outras da região, deu para ver que há razões menos explícitas para a escolha, uma vez que caipira parece, mas não é bobo.
               O Museu é muito bom, tem uma infra-estrutura impressionante, mas não é tão emocionante para aqueles que só conhecem o Alan Jackson, como eu. Dá pra ter uma idéia da história da música, ver a influência do Elvis no desenvolvimento musical do Sul e de todo os EUA, mas acho que pra gostar realmente do museu seria interessante conhecer os personagens. Aliás, nem tem referência ao Alan Jackson no museu!
               Bom, mas na verdade o Museu da Música Country reacendeu meu grande sonho, que era ver em São Paulo um Museu do Caipira. Eu já havia pensado nisso ao visitar, na Irlanda, o Bunratty Castle, perto de Limerick. Lá há um parque que conta a história do povo do interior da Irlanda. Há reproduções de casas onde se pode entrar e conversar com os "moradores", que estão cozinhando ou aquecendo a lareira, vestidos em roupas típicas. Há também uma vila, uma escola, restaurantes, tudo o que possa remeter ao irlandês típico do interior. O lugar é ideal para ir com a família, pois as crianças, além de conhecerem melhor seu povo, podem se divertir com os vários animais que há no local.
               O Museu de Antropologia do México é outro exemplo bacana de construção da memória popular. O segundo andar do Museu também conta com reproduções do dia a dia de um mexicano do interior. É possível conhecer a história e os costumes dos habitantes de diferentes regiões do país por meio das casas e bonecos.
               Há algo parececido com no Museu do Homem Nordestino, em Recife, que também achei espetacular, apesar deser bem menor do que os outros citados aqui no tópico.
               Pois bem, o que eu queria ver erguido São Paulo seria um misto disso tudo. Algo em que as pessoas pudessem passar o dia e entrar em contato com os diversos aspectos da vida de um caipira. Desde a arte até a economia.
               Vendo o museu em Nashville fiquei imagianando como seria legal ter um espaço daquele para a música caipira brasileira, desde suas raízes até os sucessos atuais. E quando digo sucesso é sucesso mesmo, porque embora a elite intelectual torça o nariz para o gênero, arrisco-me a dizer que ele é o mais tocado no Brasil. O maior arrecadador da música nacional no ano passado foi o Victor, da dupla Victor e Leo. As rádios que dão maior audiência em São Paulo são as sertanejas.
              Um livro muito bom sobre o tema é o "Música Caipira" do José Hamilton Ribeiro. Apesar de tradicionalista, o livro me ensinou muita coisa da história da música caipira. Seria uma ótima base para o museu.
              Segue um link com uma música de Cezar e Paulinho que elucida o que aconteceu com a músca caipira nos últimos anos:
           Boboca e Bobão
Casa típica irlandesa para visitação
Funcionárias do parque cozinham café irlandês
Museu do Homem do Nordeste
Museu do Homem do Nordeste

domingo, 17 de outubro de 2010

Visita à destilaria da Jack Daniel's em Lynchburg, TN

Eu e o grande Jack Daniel

Seguindo os conselhos do guia de viagem, que dava como imperdível a visita à Jack Daniel's, lá fomos nós em direção a Lynchburg, no Tennessee, estado cujo nome deve ter sido dado por um gago. Estávamos meio descrentes, achando que a visita seguiria o padrão da Guinness em Dublin e da Coca-Cola em Atlanta: pague a entrada, veja nosso museus com fotos, quinquilharias, peças publicitárias, beba um copo, compre na loja e vá embora feliz. Ainda bem que estávamos enganados.
Saindo de Nashville, andamos 1h30 e chegamos à destilaria, que fica na beira da estrada. As surpresas boas já começaram na entrada. Apesar de não entender quase nada  do que a velhinha da recepção falou, entendemos que era de graça e já ficamos muito felizes. Greaaaat Success! Esperamos uns 40 minutos para nossa vez de fazer o tour. Enquanto isso, ficamos em um pequeno museu, aprendendo sobre a história e a produção do Jack Daniel´s.
O começo do tour é numa sala de cinema, como sempre, para ver o vídeo explicativo da bebida. Mas o guia, com toda razão, falou que não precisaríamos ficar vendo vídeo e que podíamos começar logo a visita. Aí começou a surpresa, quando o guia disse que deveríamos esperar um ônibus que nos levaria para conhecer a fábrica, uma vez que o tour consistia realmente em conhecer a produção. Só não poderíamos tirar fotos da produção, sob risco de espionagem industrial. O guia foi extremamente didático, mas difícil entender tudo, principalmente as piadas né.
Vimos a produção do carvão, utilizado para filtrar o destilado, antes de entrar no barril. Como tudo na produção da Jack Daniel's, o carvão também é fabricado na destilaria, a partir da sugar-maple, aquela árvore originária de Campos do Jordão (hahahahha). Aliás, é essa filtragem pelo carvão que diferencia a produção do Whiskey do Tennessee. Ela é conhecida como Lincoln County Process, condado ao qual pertencia a cidade de Lynchburg. Durante o tour, dizem que toda a madeira é fornecida nos arredores e que foi comprovado que quanto mais alta a árvore, melhor sai o carvão. Achei meio exagerado dizer que o tamanho da árvore que vai gerar o carvão tem alguma influência no gosto da bebida. Mas o whiskey vive muito de mitos e esse foi só mais um.
Depois, fomos conhecer a gruta de onde sai a água utilizada na produção do whiskey. Como sempre, a água também é dada como diferencial. Acho que este mito que envolve a água na produção da bebida advém do fato de ser o único produto da produção que pode ser totalmente monopolizado. Você não consegue se diferenciar muito no centeio, no malte, no lúpulo, mas a água de uma reserva você pode dizer que é só sua e que ela tem algo que as outras não tem. Acontece com a Guinness e sua água das Wicklow Mountains, cujo contrato de forncecimento é de 9 mil anos (isso mesmo!), e não foi diferente na Jack Daniel's. A água também é um mito da cerveja de Ribeirão.
Voltando à visita, fomos conhecer o escritório onde Jack trabalhava. Uma casinha simples de madeira, onde aprendemos que um dos lemas da empresa é não chegar cedo no trabalho, uma vez que Jack morreu ao chegar cedo e chutar um cofre por não lembrar da senha, adquirindo um infecção que o levou à morte. Que bela filosofia! Atrás da antiga sede está a atual, um prédio não muito maior, que nos ensina o grande lema da empresa: Keep it simple! Incrível saber que o whiskey americano mais vendido no mundo tem sua sede numa casa pequena que fica numa cidade minúscula. Segundo o Atlas Mundial do Whiskey, Lynchburg é a cidade pequena mais famosa do mundo.
Depois fomos conhecer efetivamente a produção. Por ser sábado, estava tudo parado, mas nada que evitasse a diversão. Vimos o processo de fermentação, da filtragem e, por fim, o estoque de barris. Aliás, a parte dos barris foi a mais legal pra mim. Eles produzem seus próprios barris e os utilizam apenas uma vez. Segundo o guia, depois vendem os usados para a Escócia para ajudar a produção deles hahahahaha. Esta é a parte mais artesanal da produção. O barril é feito de carvalho americano e não leva um prego. A madeira é aquecida na produção e libera um pouco do seu açúcar caramelizado. Depois de colocado no barril, o whiskey permanece lá por mais ou menos 4 anos. Eles são submetidos às mudanças do tempo: quando está quente o barril expande, permitindo que o líquido penetre na madeira adquindo sabor; no inverno, o barril contrai e expele o líquido e o sabor adquirido. Por estar em uma região de clima temperado e de mudanças bruscas, a interação é intensificada. O cheiro dos barris no estoque é indescritível, dá vontade de se esconder do guia e passar o dia lá. Como dizem na visita, o whiskey não é colocado no barril: ele é confiado ao barril.
Um dos argumentos da Jack Daniel´s é que o whiskey deles não é envelhecido, e sim, amadurecido. Acho que a estratégia serve para evitar o "rótulo" de whiskey 4-6 anos, tempo que fica no barril e que é bem menor do que o dos demais whiskeys. Após este período, que pode variar, um especialista analisa se o whiskey já pode ser envazado.
Durante a visita, passa-se por um Hall da Fama. Lá estão os nomes daqueles que se dispuseram a desembolsar de 9 a 12 mil dólares para ter um barril para chamar de seu. Com esse valor, você compra um barril selecionado por um especialista, geralmente aqueles barris que ficam no alto dos estoques e sofrem mais ações do tempo, intensificando o sabor. O barril enche 240 garrafas de Single Barrel que vêm personalizadas. Você também recebe o barril em casa e ganha uma tampa com seu nome, além de ficar estampado no Hall da Fama da destilaria. A destilaria também garante o aumento do número de amigos. Os grandes compradores do Single Barrel são as organizações militares, segundo o guia. Ótimo para um casamento também né. Eles entregam no mundo inteiro.
No final, chega-se à lojinha. Aliás, ainda não contei o detalhe mais importante da visita: a Jack Daniel's fica num condado onde é proibido beber, desde a lei seca americana. Isso mesmo, a maior destilaria americana e uma das maiores do mundo fica numa região onde beber é estritamente proibido. Minha cabeça brasileira demorou para entender como uma potência econômica como é a Jack Daniel's não consegue reverter uma lei local. Acontece que Lynchburg não tem votos suficientes para reverter a lei, numa região marcada pelo fundamentalismo religioso cristão.
Mas nada que atrapalhe o passeio. No final, compramos uma garrafada do Single Barrel e uma do Gentleman Jack, que passa duas vezes pelo filtro de carvão. As garrafas vieram com um selo de que foram compradas lá.
Depois da visita à destilaria, fomos a Lynchburg. É, sem dúvida, a menor cidade a que já fui. É só uma praça, com casas em volta. Para achar onde comer foi um sacrifício. Recorremos ao hamburguer. A loja com produtos da Jack Daniel's fica lá e é bem legal. Tem tudo que se pode imaginar. Ficamos só nos copos, mas dava pra comprar coisas pra casa inteira. Vendem, inclusive, pedações de barril.
A visita à Jack Daniel's foi mais do que um passeio. Para mim, serviu para mostrar que os valores em que acredito não são utópicos. Mesmo em cidades pequenas, mantendo as coisas simples, é possível criar um dos produtos mais conhecidos no mundo. Sem stress, com eficiência, sem se levar muito a sério.

 Dá pra levar um desses pra casa a partir de 9 mil dólares

 Estão aqui os ingredientes.
 Escritório do Jack.
 Maple tree com o tronco preto, como ficam todas as árvores em volta da destilaria.
 Quem não queria trabalhar num ambiente assim?
Saindo da destilaria, com os produtos muito bem embalados...

Abaixo, Jack e a gruta de onde vem a água.